terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Etéreo

Dedicado a Anna Alvim

  Sua boca possuía um gosto de vômito que julgava ser o castigo para os pecados que não assumia cometer, mas cometia e sentia seus imensos prazeres pessoais inundar-lhe sem consciência (dir-se-iam). Sendo o único incômodo aquele gosto que passaria com alguns goles d'água.
  Era que, em sua proteção de paredes brancas e gélidas, esquecia de suas ações, lembrando apenas de si. De quem seria e de quem deveria ser para admirar-se. Esculpia sua própria imagem.
  Não era hipócrita, mas acreditava que se era responsável por suas definições sempre quando as notava. E as mudaria ou não, controlando o que lhe era mal e exaltando o bem aceito. Definindo o limite exato que a beleza se tornava veneno. E descobrindo onde estava o controle: em qual sorriso, em qual olhar, nesta ou naquela expressão e naquele jeito de falar com olhos intensos a engolir.
  Assim sabia, ao sair de seu quadrado protetor, ser quem lhe definiam e surpreendê-los em fáceis respostas sem manipulação no rosto angelical.
  E fazia, na segurança de seus ensaios. E possuía o que queria, os rostos que desejava.
  Não dissimulava e orgulhava-se disso. Conservava-se em sinceridade. E não carregava a culpa de sua ambiguidade, que permitia-lhe ostentar dentro de si suas possessões. Mesmo que confundia-se com as semelhanças, por vezes tão iguais.
  Mas não notavam, nunca notavam as complicações.
  E pecava _ dir-se-iam: por fazer o que não conseguiam e sofria as consequências em gostos que surgiam de repente como prova de que ainda possuía consciência.
  Não que a negasse. Sabia-a e ouvia-a. Mas não poderia juntá-la ao fato de possuir a si mesma sobre seu controle e, dessa forma, controlar os que lhe atravessavam.
  Não. Não via em que sua consciência deveria palpitar, a não ser nas vergonhas que sabia existir guardadas.
  Então, ela não monologaria sobre seus pecados, justamente porque não existiam. Não estava afirmando que não pecava, concluía apenas que aqueles devidos e definidos eram falsos para si.
  Não vinha do alto a sentença que os apontaria. Formavam-se em bocas como a sua, recheadas de conceitos repetidos. 
  Puro padrão.
  Soltos em argumentos pérfidos, enfeitados do que definiria como mesquinhez de prepotentes _ a julgar o que era bem e mal.
  Então, não haveria de castigar-se por ser capaz de decifrar-lhes a alma _ já que a deixava tão exposta. Bastava-lhe o vômito na boca, pelo nojo de ponderá-los sequer momento, de crê-los, tão vãos e terrenos.

Marina Cangussu F. Salomão

Insalobre

A razão, tão constante perfidez,
Envolve assombrosa os limites
Delimitando-os corretamente
Sem permissão de sequer folego
Ou aventura que invada espaços
Além da pele que o delineia
Além do sóbrio que o perfaz.
E o faz tétrico em lucidez
Deliberadamente insana
De tão correta e perfeita
Na construção de estórias
Sem deleites nas atrações espertas
E sem abandono nos olhares contratados.
Apenas ela tem o dom de desenhar
Os passos em recusa
Que negam as evidências
Tão notórias e claras
Por covardia de ofendê-la
E entregar-se consciente à água
Que desliza por entre suas pedras
Impedindo-se de afogar 
Nas quimeras da imaginação.


Marina Cangussu F. Salomão

Timbriante

Foi o que me tornou esse homem
imediatamente simpático:
a espontaneidade¹
Divertido em excentricidade
Que cativa de longe um deslize em sorriso
Não era bem exato como imaginava
E pecava no silêncio e nas falas
Que por muitas vezes concretizava o perder-se
Sugante em apócope dos versos.
E tão delinearmente insólito
Em suas regras moles no tempo
Quebrava o âmbar que mantinha
A estrutura fixa e honrosa de exposição
Mantida em vácuo
Desejando o líquido que lhe preencheria.
Então fez-se apodítico para desfechar
E completar surdinamente a imagem oca
Pois era ele e só, sem mais complicações
Sem os remorsos dos dias sem ideias
De graças inconstantes.
Pois só ele ignorava as frases feitas
E os ritos de polidez¹
Com a graça elegante de encantar.

Marina Cangussu F. Salomão

¹Simone de Beauvoir in Os mandarins

Unívoco

O inacabado estava na lucidez embriagante
Que girava a razão sem incúria
Permitindo-a entontear-se.
Eram duas faces siameses
Que não se conheciam sequer
Uniam-se na confusão de imagens
Ampliadas de pudor remoto
Abandonados os preceitos
Em erros incompletos.
Eram como pirâmides
Em uma face apenas
E no topo nunca estaria o causador
Por ser incompetente
No tríduo que não formara
Diante do casamento das duas faces
Idênticas em suas diferenças
Deliciosas de puro deleite.
Afinal, sua completude seria
A forma que sempre procurara
Encontrada envolta em faltas
Que se desenhavam terríveis e doces
De tanta espontaneidade.


Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Era outra vez

O mundo de mágica
Se desenhava novamente
Tranquilo e assustador
Com os novos personagens
Em dramas que não se imaginava
Para cena tão perfeita
De jardins rosados e brilhantes
Mas se fazia e protagonizava
Sutil e gentil em risos
Bem pequenos e delicados
De olhares cúmplices e discretos
Como os raios do sol
Que entram pela manhã bucólica
Era tal o vilão bonitinho
Em capa de príncipe
Que tomava da princesa
Os pensamentos antes tão longínquos
E lhe transformava os gostos
E mudava a rota
De seu final feliz.


Marina Cangussu F. Salomão

Peso

E fartava-se de tanta lucidez
De tanto deslumbre controlado
E tanta fala imposta
Pois ao final nada pararia
Nada estaria presente.
Mas sobrepunham-se aos fatos
Às falas que disseram outra vez,
E nunca cumpriram-nas,
E faziam certa e somente
Sem saída diante das vontades
Reprimidas pelas magoas
E pelas palavras que rodeavam
Escondidas, incessantemente,
E deveriam forjar-se e também
À luz que fluía sincera das janelas.
Sendo que nada adiantaria
Negar-se em mentiras
Ditas em vão para o vácuo 
Porque o fim não existiria
Sem os dois gentes.


Marina Cangussu F. Salomão




Talvez

Incapaz de separar as exigências e o exibir-se
Ouvia os gritos que não desejava
Frente a embriaguez que lhe controlava
E o futuro confuso que desfizera em segundos.
Não era claro nem era sol
Mas fazia-se como meteoro
Apenas turvo em luz fugaz
A misturar-se em sua visão
Que nada via longe e concentrava-se agora:
Supérflua:
Perdida nas ideias que aceitava
Para construção da nova verdade exigida
Que desfazia-lhe a essência.
Essência vã que talvez nunca existiu
E ponderava-se apenas na voz que gritava
Por medo de soltar-se em perdas
E medo de ganhá-las.

Marina Cangussu F. Salomão