quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Vagando

As memórias começavam a vaguear-se
Esparsando a cada giro de instante
Sustentado pelo diferença de quilômetros
E fazia bem à promessa mal falada
Trocada entre o que se queria e o que se dizia.


Poderia voltar bambeando na inconstância
Ou concretizar-se nos pensamentos sem vontade.


Era que o tempo que as memórias rodopiavam
Apresentava-se imenso em ócio constante
E permitia intensificar o que havia
Também complicá-lo em complexo inexistente,
E labiríntico não havia a soltura atraente de antes.


Marina Cangussu F. Salomão

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Para Dirceu

Enquanto pasta alegre o manso gado,
Minha bela Marília, nos sentemos
À sombra deste cedro levantado.¹

Levaria-o para qualquer lugar que os passos comandassem
E encontraria na paz do silêncio das gentes
O verde dos pastos intercalado ao verde dos brejos.
E em todo o incomodar do mato e seus mosquitos,
A picar e pinicar onde encostavam,
Poderia deitar-me próximo de teu tédio
E perceber cada centímetro teu refletir o verde
Que me confundia se o chão ou a tua esperança
Se perdendo por todo ele.
E era tão bucólico e desfrutante o instante
Que permitia a nós perder o tempo dos segundos
E não ouvir, não falar, nem fazer nada
Apenas contemplar aquela finitude que envolvia,
Sem toda sua graça de outrora.
Mas permitia-nos brincar quais os mosquitinhos
Em seu zumbido doce e bobo,
E junto de tanta beleza nos enamorar.

¹ Tomás Antônio Gonzaga in Marília de Dirceu (Parte I, Lira XIX)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Formigas

Depois, que a embriaguez o deixasse
Iria desejar estar menos bêbado
No momento em que as formigas lhe subiram
Para poder senti-las e não apenas sabê-las
Na visão que ainda lhe era fiel.
Lúcido seria capaz de sentir suas pequeninas patas
Cada passo, na escala de sua enorme perna
E poderia compreendê-las melhor
Sem somente abaná-las e jogá-las ao chão.


Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 18 de dezembro de 2011

Controle remoto

Já não aguentava mais. 
Aquela confusão a sufocava.
Por que não poderia ter os dois?
Por que não poderia ter tudo aquilo que desejava?

  Sentia a respiração exigir-lhe mais e o coração avisava-lhe, desesperado a bater, que não suportaria, clamava pelo ar. Porém o ar rarefecia-se, tornava-se longe e difícil. Estava perdida.
  Morreria. Não havia onde sugar todo o ar que necessitava para manter-se viva, para controlar-se, controlar o desespero de seu coração.
  Morreria. 
  Mas talvez fosse melhor assim: chorariam por ela e por sua ausência, sofreriam essa ausência e ela os faria esquecer seus erros e suas faltas. Esqueceriam que deveria escolher e também perderiam na memória santificada de sua imagem em saudade o erro de sua escolha. Assim bem melhor. Morreria e seria absolvida de seus pecados, absolvida da condenação de escolher.
  Mas seu coração permanecia apressado, avisando-a que ainda não morreria e implorando pelo ar com a urgência que não gostaria que lhe exigisse. Precisava de tempo. Precisava de muito tempo. Mas se o desse perderia as alternativas: e não haveria escolha, mas também não haveria nada.
  E não poderia haver nada: Se abdicar-se de um já a enlouquecia, imagina perder os dois. Não. Não sobreviveria à miséria do nada diante de seus esforços e de suas dores, diante da loucura de desejá-los como parte de si.
  Como se cada um fosse um pulmão.
  Não poderia dar-se ao luxo de perder sequer parte, sequer segmento pulmonar. Pois é como um câncer: necessita de muita energia, de muito ar, de muito sangue nobre contaminado pelas alternativas. E um câncer não pode perder sua fonte, não pode perder seus pulmões.
  E por que não poderia ter os dois? Por que lhe condenavam à escolha?
  Bem sabia que suas vontades eram divergentes. Completamente opostas. E nem infinitamente suas retas se cruzariam. Nada as intercedia.
  Talvez isso que a sufocava: esse desejo pela impossibilidade. 
  Achava tão atraente sua união. Tão desejável! Delicadamente incerto e desequilibrado.
  Louco.
  E a loucura sempre a atraía tanto... Lhe persuadia suavemente a gostar de sua insanidade. A entregar-se ao seu mundo mais torto e mais fantástico: com tantas cores e de repente negro, sombrio e desesperador. A consumir-lhe a calma, a linha, o certo e o bem. A consumir-lhe a respiração, sufocante de tanto medo da razão, que impunha-lhe certeza e padrão, e retirava-lhe a loucura.
  A loucura que teimava em explodir e ousava-se a fragilizar os muros que a segurava a cada batida daquele coração desesperado.
  A loucura que a atraía e explicava porque a cada dia lhe aparecia uma desconhecida cada vez mais atraente no reflexo de seu espelho. E era tão atraente que sua permissividade aumentava: e ela poderia tudo. Poderia ter o que quisesse... Poderia ter os dois.
  Não escolheria.

Marina Cangussu F. Salomão


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O ronco

Enquanto o ronco barulhava
Ele ensinava os truques
E os risos secretos dos disfarces
Que se moldavam no silêncio
Das vozes e não dos corpos


Enquanto o ronco barulhava
Exibia a esperança da razão desleal
E das loucuras incrédulas
Que seriam bem guardadas
No silêncio dos olhares cúmplices


Enquanto o ronco roncava
Aprendia a ser longo e solto
A encontrar-se livre no silêncio
E a escapar intacto das tramas


Marina Cangussu F. Salomão

Embolhada

Apesar de seus anos
Ela não aprendera a desregrar-se
O que ao mesmo tempo
Protegia-a em suas justificativas
Argumentadas nas leis dogmáticas
E a permitia julgar:
Defender-se do que se negava.
Bem como impedia-a de ver
De sua proteção, o que havia
Um passo a frente em seu longe
E impossibilitava-a de compreender
Os sons que invariavelmente a atingia.
Mas era feliz em sua ignorância
Pouco escolhida diante dos fatos:
Afinal, não fora ela quem erguera
Os primeiros muros
Apesar de contribuir com muitos tijolos
Moldados nas crenças e terrores
Sem dúvida, que lhe estoriaram.
E vivera em sua ilusão redonda
Como menina boba
Que nunca larga as invenções das bonecas.


Marina Cangussu F. Salomão

A permissão

Um cheiro doce misturado ao cigarro
Que me irritava de tanto que entontecia
Unidos às mesmas frases e falas e textos entediantes
Que vinham de todo o murmúrio de todas as gentes
E colocava-me a fazer o que não devia
Nem nunca imaginava em palavras:
Desponderar-me inebriante de tentação.
Era a tristeza que expressavam 
Que pendurava meus pensamentos
Em imagens e falas repetidas
Repetidas e transformadas em algo ainda maior
Que enganava-me nas misturas que fazia.
É que não seria capaz de tais atos
Já que meu destino era amar neste mundo
Antes de sentir esse cheiro irritante
Que facilmente me desdobrava para contemplar
E agitava-me em sede de senti-lo.
Me incomodava tanto porque
Retirava-me de meu controle
Pelas cenas que meus olhos viam
Fazendo-me solta em sinceridade precisa
A admirar o que realmente havia:
Desacomodava-me, forçava-me a ser
Quem não era mas deveria
Dava-me liberdade. Plena liberdade
De sentir-me e experimentar-me
De permitir em toda sua confusão.


Marina Cangussu F. Salomão