quarta-feira, 9 de maio de 2012

Desacuando

A cabeça enrola-se nesses traços mal formados 
E pouco despedaçados
E o pensamento força-se a desfazer os tracejos 
E despudorar os intactos castelos de ondas e palavras
Desvirginando em sequencias a arte acuada 
E liberando-a das membranas que a conduzia à quietude


Marina Cangussu F. Salomão

Desconjuntura

Ela era livre e só
Em pés desconjuntados e forçosos
Muitos foram os amores
Que seguiram seus caminhos
Abandonando os maus trejeitos
E se encontraram em outros chãos
E ela ficou quieta
Com medo de andar sem pernas
E com seus pés descomunais


Marina Cangussu F. Salomão

Pés baços

[...] cantais como os pássaros que de manhã recebem alimento, 
Mas há pássaros famintos, que não podem cantar¹
Nasceram da Palavra e andam soltos
Sem mala, roupa, sala, nem nada
Andam sentados nos cantos
Com pés de cinzas do inferno de onde veem
Caminham dias seus olhos seguindo passos
E veem tudo, menos seus próprios laços
Dissolvidos em qualquer superfície
Bem antes de nascerem séquitos

Se amontoam perdidos, salpicados entre os cantos
E não cantam sequer sinfonia ruidosa
Ressoam somente seus gemidos tantos
E voam pelas manhãs à espera de argumentos
Sem ouvirem nada na surdez contínua
Ou na mudez perplexa e rápida dos passarinhos
Que apenas sentem o aroma das rosas brancas
E não o fétido aroma da carne dos perdidos

Marina Cangussu F. Salomão
¹Cecília Meireles in Elegia sobre a morte de Gandhi

A pequena bailarina



Para Luísa Cangussu
Ela deveria ter nascido bailarina
Estava em todos os detalhes deixados
Nos traços de sua formação
Entre fineza e ar complacente
Deveria ter nascido em saltos delicados
Com harmonia de encontros e soltos
Para entregar a raiva à encenação
E o lindo sorriso aos tantos aplausos
Movimentar todos os músculos
Em fina contração delineada
Deveria ser livre no vento
O mais terno que lhe percorria a face
E envolvia todo o corpo no tour
Deveria sê-lo na leveza da estrutura
E vagar com os mesmos passos
Com pés em ponta no chão
Quase soltos e pouco fixos
Deveria
Marina Cangussu F. Salomão

O tempo das horas


Sentia angústia pelo tempo desperdiçado
Nesse colar de rotinas minúsculas¹
De vai-e-vem sem ir a lugar algum
Rodando lentamente à espera de tontear-se
E sentir a alteração autônoma de seu corpo
Para se sentir mais autêntico e si
Mas ao final de tantas voltas
Nada era além de um corpo (corpo apenas)
Sem a alma para girar no espaço
E transcorrer seus ilimites
Pois o corpo gritava mais alto
Na exaustão da tentação do todo
E ilimitada era somente a carga que lhe pendia
No descorrer de tantas horas
Sem medidas no relógio
Pois o tempo não se via, só a dor por todo o corpo
Em cansaço de mesmice de dias sem exatidão.
Marina Cangussu F. Salomão
¹Isabel Allende – O Plano Infinito

Andarilho


Lá o tempo dita-me anos
Em clarência de afeto
Aqui professa-me segundo,
Roubando-me o tempo de ver
E em cegueira
Restam-me apenas as cenas de antes
À espera da esperança de voltar
Para o delineio sem espaço
De todo o afeto que transbordava
Afinal, é bom abrir os olhos
Em paredes conhecidas
(e aquecidas)
Marina Cangussu F. Salomão

Morre o solo sonho


  Talvez eu não queira voltar lá e ver todos os destroços, toda a ruína. Perdidos.
  No tempo achei que valeria perdê-los, por um futuro promissor: como dizia a voz de todas as gentes.
  Hoje, no futuro, restou-me apenas um bolo enorme tampando minha garganta, impedindo-me de tocar o alívio. Porque o tempo já passou e não posso, apesar da imansa vontade, correr desesperado em lágrimas para o colo de minha mãe com o joelho puro sangue.
  Não posso, porque minhas quedas agora são outras, e não existe nenhuma bicicleta, e o encontro de meu rosto ao chão ninguém vê. E se percebem, dizem com desdém apenas que todo mundo aguenta.
  Talvez meu pai estivesse certo em minha adolescência quando batia as portas, justificando que o mesmo todo mundo ia à festa, e ele, com toda calma, argumentava que eu não era todo mundo.
  Sim. Hoje vejo que não sou. Não tolero o quanto eles toleram. Ou pelo menos não consigo fazê-lo em meio a entorpecentes e outras drogas, remédios, gritos e explosões.
  Não consigo. Só consigo chorar. E é fato que me despedaço na cama, abafando a dor das lágrimas no travesseiro.
  Mas talvez seja isso a maturidade que não enxergo: correr, como antes para o colo materno, mas dessa vez para as outras saídas, típicas de adulto.

  E engraçado como as crianças têm amadurecido tão rápido - e brincam tão pouco - nem se lambuzam de tinta, só de cola (e esta não é a escolar).
  Ah! Confesso: a vida é inimiga de minha arte. Pelo menos esta vida!

Marina Cangussu F. Salomão