quarta-feira, 31 de julho de 2013

Canção

Tinha algo a dizer 
Quando disse.

E algo a olhar
Quando olhei.

Mas nada para fazer
Quando te beijei.

Marina Cangussu F. Salomão

Sonolência

Saudade que amolece
Desfalece a graça.
Saudade que corrige
Dirige a pirraça.
Esmorece quem passa
E adormece quem fica.

Marina Cangussu F. Salomão

A vida aqui de dentro

Ele sempre me matou.
Me traiu.
Me humilhou.
Me podou.
Me ignorou.
Não me viu nem me escutou.
Me arrebentou.
Me desesperou.
Me impediu.
Me sufocou.
Me excluiu.
Me negou.
Me abortou.
Não me viu nem me escutou.
Ele sempre se matou.

(Mas o amor nos mantem vivos. Sem querer.)

Marina Cangussu F. Salomão

Árvores invisíveis

As árvores vizinhas se entrelaçam
Misturam galhos e folhas
Confundem ventos
Só se distinguem nas flores

Marina Cangussu F. Salomão

("O resto é mudo e intercambiável - árvores e pedras são apenas aquilo que são..." - As cidades invisíveis - Ítalo Calvino)

O mu(n)do

Se soubesse desenhar o que os olhos veem
Desenharia tantos desenhos
Uns soltos e presos
Independentes, robustos
Fugazes e tristes
Abertos, senhores

Viriam...
Do dançar autônomo das vistas
Do mudar diário dos olhos

Marina Cangussu F. Salomão

Pedaços

Voar exige se desfazer de pesos
Eu ainda não me desfaço.

Marina Cangussu F. Salomão

Conversa de caboclo

"Aquele tempo tem muito tempo.
Hoje num tem tempo mais."

Marina Cangussu F. Salomão