quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Do sonho que tive essa noite

Alguns lugares não mudam: 
Tiram-se árvores, 
Põem-se ruas, 
Casas, 
Gentes. 

Não mudam em anos distantes, 
Em sons atrevidos, 
Em músicas vagas.

Marina Cangussu F. Salomão

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Pena

Estou desolada nesta terra sem pensamentos,
Enquanto todos eles veem à minha cabeça,
Dizendo-me todas as derrotas
E todos os fins, com deboche,
Pisoteando meu desprezo.
Desfilando perante meus olhos todos os anos,
Todos os tantos anos de amargura.
Veneno e Inferno.
Movendo lentamente em minha dor,
Enquanto meus olhos giram à procura do encanto
Que vejo em cada passo dos que passam.
Agora: matam-me,
Sufocando a nojenta esperança que me padece.

Marina Cangussu F. Salomão

Dança Cigana

Talvez não seja bom respirar
Entre tantos marasmos e tantos cabritos
Em tanta terra beje, tanta poeira

Talvez não seja bom ativar as narinas
Já que não há vocabulário
Nem significado
Nem ritmo

Marina Cangussu F. Salomão

Todos nós perderemos uma parte de nós mesmos algum dia,
Seja o pé, 
A cabeça 
Ou o fígado.

Pelo que vejo no mundo, 
Desejamos que seja sempre o pé. 
Porque é melhor não se manter de pé 
Do que não poder escorar.

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Place

Where we are
It's so hard
It's so far

Marina Cangussu F. Salomão

Reparação

Tenho saudade de tua boca, de teus olhos
Tenho saudade de teu olfato, de tuas mãos
Quero que me abrace, que me tire do vão
Quero que me envolva
Quero que me ampare
Que me ame
Me repare.

Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Poucos anos

 Sentou-se à minha frente com a sua armadura de soldado.
 Carrancudo. Feroz. A ponto de destroçar qualquer presa.
 Me olhava. 
 Não haviam palavras entre o espaço que nos separava, às vezes alguns gritos.
 Mas aquele dia o silêncio me sufocava, porque havia muito e muito tempo a dizer.
 Então me lembrei dos outros anos: eu não tinha julgo e não o desenhava mau.
 A luz apagada e o som, que ainda hoje me embala, iniciava em meus conhecimentos.
 Ele, deitado no chão ao meu lado: Deus.
 Eu: pequena.
 E não sei se a melodia ou o conforto da companhia, ou a pouca idade; estava guardada de todo mal. 
 E aquele momento me guardaria de todo mal. Porque tantas vezes quis fugir e desfazê-lo de meus sonhos primeiros. Tantas vezes quis matá-lo e machucá-lo em minhas imagens. Porque não era capaz de perdoar-lhe todos os defeitos que me dera e tudo o que não conseguia enfrentar em mim. Porque foram tantas cenas guardadas, tanta confiança despida. Tanto medo e tanta solidão.
 A partir do dia que o perdi, eu nunca mais tive ninguém.
 E o perdi tão cedo... Ganharam o álcool e a teimosia, o orgulho e a traição. 
 Eu: continuei pequena. 
 Senti falta daquela mão aborrecida e explosiva para me ensinar a levantar e a ver o quão grande eram minhas pernas. 
 Desde então nasci fraquinha e magrelinha...
 Mas tanto mudara nesses segundos acumulados.
 Eu, perdida sem o motivo de minha fé, substituído pelo motivo do meu desespero, guardei aquela cena de adoração. E mesmo em todo o meu ódio, consegui manter-me, consegui mantê-lo. Consegui manter a esperança.
 Agora, olhei no espelho e vi todo o meu tamanho e todo o caminho que desenhei para trocarmos as posições. E vi que todos os anos foram para construir o instante de retribuir todo o amor que ele me deu sem perceber, sem que eu percebesse. O amor que emanava naqueles gritos e naquelas falas, o amor que se escondia perante o desprezo. 
 O amor que existe e pronto.

Marina Cangussu F. Salomão