domingo, 27 de abril de 2014

Cidades - Marrakesh

Lembro-me de teu céu
Lá do outro lado do mundo
Lá do lado do não sei
Onde nunca fomos fecundos
Onde havia um céu azul que guardei
(Que ao escurecer rosa colorido anil)

E foram-me indo tantos céus
E tantas cores desordeiras
Que foram-me vindo tuas lembranças
E aquelas tuas bobeiras

E lembro-me do teu descontentamento
Da confusão em meio às praças
Dos sinos ao entardecer
Dos cheiros loucos de couro, comida e graxas
Lembro-me antes das cores
(Das dores e dolorimentos de tua liberdade)

E lembro-me tanto de ti
Que nos confundo nos desfiles de pensamento
E quando penso ser eu, me vem teu rosto
E quando penso ser você, me vem teu gosto

E vivo fugindo de tua tentação
Que se confunde no desejo e no imposto

Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Contos de Dona Laura



Subiu o mais alto da frace da terra
Na surdina do amanhacê
Pegô librina e moiou no aruvaio
Num teve reza pra se aquecê

Barreu a istrada inteira
Até a derradeira preda
Nas fôia de aruvaiêra
Até levô uma queda

Lá pra iscurê
Oiô o camim pelo gaio
Baxô os arqueado 
E o minino do cangaio:

'Maria valeiro que me dê cabiceiro
Pras noite de arubu
Iscura disfeita de lun-a
Qui vai certera nos rumo do su.

Pois nessa istrada sem pedrest
Passa caval sem as frace
Passa cobra e assumbrace
Mas num passa um cigâ-n num disfrace.

Valei-me Deus as perna guentá
Sem rumb e sem agasai
Subi uma subida dessas
Todo santo dia de trabai

E é muit sufriment
Num tem um gent que guent
A vida sufrida de meu temp'


Marina Cangussu F. Salomão



Discurso calado

Portanto mudarei o discurso
Retornarei o percurso
Desistirei do meu curso
Aliviarei o teu pulso
Para estar ao teu lado
Para não esquecer o recado
Para servir-te recatado
Para ver-te enfadado
E morrer frio e calado


Marina Cangussu F. Salomão

Futuro Decreto

Prosseguiram os desconhecimentos redundantes
As causas atenuantes
E o lirismo... 
O reto lirismo das curvas

E já nem se fala em paradoxo
Teve-se o fim do ortodoxo
E do chauvinismo...
O porco chauvinismo desmentido

Então a estátua estática normalizou-se
Urubu aquietou-se
O elástico esticou-se
E tudo foi permitido aos que quiseram.

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sempre os ponteiros

O tempo podia voltar
Em alguns dos ponteiros
Fora da imaginação

E retornar os delicados momentos
Que hoje são bons
Fazendo-os eternos na alma e no coração

Marina Cangussu F. Salomão

Sentível

Sei lá como ficaram todas as pequenas coisas impossíveis 
De enxergar com a luz que entra pelos olhos

Mas talvez se concentrarmos a alma, a calma se distrai
E o mundo fica mais tocável e sensível


Marina Cangussu F. Salomão

Poetisa

Sou poeta de nascença
Sem pertinência
Mas sem desajeito
Nunca tive repetência
Ou fiquei no malfeito

Sou poeta de nascença
Nasci marcada no meio termo,
Meio que a ermo
Na mancha café-com-leite
Sem enfeite
Do braço esquerdo

Sou poeta de nascença
Sem reticência
Alguns asteriscos, outras vogais
Vim assim sem licença
Sem consultar os anais

Sou poeta de nascença
E de nascença nasci sem crença
Nasci sem rumo
Ou sem pardais
Os que voaram foram gaivotas
Diante os pantanais.

Marina Cangussu F. Salomão