domingo, 29 de novembro de 2015

Gramática do bemquereres

Ela não sabia apreciar
Aquilo que não lhe era esperado
Então ela colocava padrões
Desfilava em limitações
E esperava o que estive pronto e em forma
Com formato que lhe encaixasse

E ela desistia sem tentar
Construía para desinventar
Justificava justificativas tolas
E se perdia em sua gramática sintética
De regras estúpidas
Conjugando verbos em tempos inexistentes

Mas era ela quem se perdia
Era ela quem escolhia
Ela quem não fazia
Quem desmerecia
E ía.


Marina Cangussu F. Salomão

Entulhos

Porque eu me apaixonei...
Começava aquela carta escrita
Que ia junto de tantas outras
Empilhar-se na despensa:

Eram coleções de dores sem rancores
Aquele entulho de amores
Já sem flores, sem cores
Horrores.

Um dia, dizia, abriria uma franquia
Em que se faria, por telepatia
A entrega só do que permanecia
Sem alforria.

E seria a liberdade com vontade, 
Daquele tanto de vida sem novidade
Que iria sem maldade
Viver sem ter idade

Pois o amor 
Merece o fulgor, de viver em calor
Apreciando o torpor
De não saber onde se por
Quando se está livre

Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Eleição

Estou sem rumo
Sem foco
Sem jeito.
Estou assim como prefeito
Em época de eleição:
E falo bestagens
Em minha cabeça.
E faço moragens
Em construção
Em demolição.
Estou do avesso
E não amorteço
Minha queda.

Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Acontecimentos

Acontece da gente se afastar
E não nos restar nada.
Acontece de nos olharmos com carinho
Carinho apenas.
Acontecem finais. Começos.
Retrocessos.
E acontece de seguir em frente
Ou seguir rente.
Acontece de não haver culpado,
De só restar alguém calado
Ou alguns corações partidos.
Acontece de tudo na vida
Sempre.
Basta olhar para o lado.
Porque também acontece de dar certo.
Acontece de ser infinito.
Acontece de eu te achar bonito
Para sempre.

Marina Cangussu F. Salomão 

Passagens passadas

Algumas coisas passam para não voltar
Como a primavera
Ou uma blusa velha
Alguns sorrisos.
Mesmo algumas memórias.
E outras tantas coisas que vão
Sem retorno, sem regresso.
Até você: que não quer ficar.
O caminho vai sempre para frente
Como uma esteira, um moinho, 
Uma roda de caminhão
Qualquer coisa que gire, 
Para frente somente.
Mesmo dias, em suas repetições diárias
Nunca terão a beleza da descoberta de antes
Ou a delicadeza de cada instante.
Essas coisas passam,
Uma a uma.
E só existem em memórias, se guardadas,
Ou cheiros, tatos, sorrisos e cores.
A vida passada vira sinestesia.
E uma caminhada corriqueira 
Passa a ter cor de laranja, com cheiro de barulho de galhos pisados e gosto de ar fresco.
E é bom que tenha
É bom que passe
Que faça sentido.


Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 25 de outubro de 2015

Variações

Às vezes me pego variando em pensamentos
E me percebo em um futuro que não sei
Rapidamente tento fugir da tentação
Pois tenho medo do que pensei.

E me vejo variando sobre nós dois
Nossa loucura e nossa paixão
E percebo os passos que pisei
E me amedronto com os que serão.

Afinal, quando toda essa paixão passar
Toda esse devaneio e desespero 
Quando tudo for apenas lembranças de bons tempos
Como vamos dosar nosso tempero?

Quando tudo for uma tentativa frustrada 
E já não soubermos mais em que nos basear
Quando olharmos um ao outro 
E já não houver mais tanto ardor para dar.

Quando já não houver mais brilho ou incertezas de apaixonados
Quando tudo virar ladrilhos com tijolos salpicados

O que faremos quando tudo isso passar
Com a sensação de que não nos resta tanto desatino
Sem devaneio de permissão de viver o agora
Sem carícias, sem destino.

O que faremos?
Sem a doçura vã que fica no coração dos que se entregam
Sem a resposta rápida que rodeia de esperança
Sem acreditar em qualquer crença que nos pregam.

Como vamos lidar com os defeitos que nos incomodam
Quando soubermos que tudo está morno: apaziguou
O que farei com o amor que existe entre a gente
Mas que hoje em dia eu não te dou.

O que faremos com o amor mais louco e intenso de nossas vidas
Quando dentre ele já houver resquícios de outras paixões
Não seremos mais tão belos, mais tão lindos e com sorrisos
Como viveremos de reparações?

O que faremos com nossas almas cruas uma em frente a outra
Ou a companhia nua de nós dois sem roupa


Marina Cangussu F. Salomão

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Gravetos

Algumas passagens são tão sutis na alma
Que guardam-se carinhosas nas gavetas da vida
Mas tão sutis e leves 
Que conseguem sair nas frestas e refrescar a memória
Com felicidades em doses constantes

É bom isso de se lembrar do bem
De permitir o desengavetar
De deixar gravetos no caminho do relembrar

Marina Cangussu F. Salomão