terça-feira, 29 de julho de 2014

Pedaços

É estranha essa vida de pedaços
Que se recheiam mutuamente em varal sem laços
E já nem sabe-se mais o que pendura no esquecimento
Ou se pendura detrás dos tantos muros de arrependimento

Mas em algum segundo todos os pedaços desfilarão
Um a um sem norma ou sequência de padrão
Apenas sorriem como se delicados
Ou debocham mal encarados

E terá de vê-los com olhos, almas ou cores
E terá de tocá-los mesmo sem dispersores
Pois terá de senti-los mesmo com dores

Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 20 de julho de 2014

Ideias Invisíveis

Se vim antes dos ponteiros badalarem
Por que ainda pergunto as horas de meu pulso de pouca precisão
E desde pequeno preciso saber onde se encaixam os ponteiros de cada segundo em vão

E preciso saber também das epopeias, 
anedotas, 
onomatopeias, 
colmeias
A rima que for
E preciso do ar para me refazer 
do tato 
da fala 
do fato 
do mato 
Como quiser compor

E preciso de ouvidos para deleitar-me seguro
No impuro, duro deste arpoador

Já os olhos são eles que precisam de mim
Em sua vida autônoma, louca e confusa
Sem direito à rima e à dor

No final, acho que tudo em  mim é loucura
Bem feitura Desatadura
Retrato caído e estendido
Reconstruído nesta amargura
Pois só pode ser loucura 
Tanta beleza.


Marina Cangussu F. Salomão

Primeiro verso que ficou em mim

Quem iria num dia de mormaço
Caminhar por onde eu passo
Assim sem mais ou menos

Quem iria neste terreno ter certeza
De ser pleno onde quer que seja
Mesmo que ameno o intuito inverso

Quem faria em qualquer praça
Bem no meio de massas
Cenas de palhaço:
Lá no mormaço do primeiro verso


Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Meu labirinto

E por que a vida não ser simplesmente
Um parque verde em dia de mormaço
Grama. Brinquedo. Crianças. Passantes.
Cachorros. Palhaços.

Por que não ser naturalmente
Uma meditação em banco singelo
Casas. Aromas. Chinelo.

Não ser um tempo em vão
Um amor com vazão

Dessas a que se quer voltar... 

Marina Cangussu F. Salomão



O Labirinto De Novo

Nunca sei por onde piso
E talvez o melhor seria não pisar
Já que sou cega nesse chão amanhecido
Olhos cegos de poesia

Mas a arte é uma cria
Que impulsiona passos
Que cria rastros
E pouco mais que vida

Então sigo interrogando
Desconstruindo
Pisando
E fluindo pelo labirinto

Marina Cangussu F. Salomão

Derretimento

Fale-me de poesias
Ou daquelas cantorias
Mas fale-me
Do tédio, de teu pouco remédio
Do amor que me tinhas
Fale. Grite
Faça-me escutá-lo
Peça-me para derrotá-lo
Discorra. 
Prenda-me em masmorra.
Enquanto descerei meu corpo
Por todo o gramado
Este aqui mal amado
Derreterei-me neste verde
Que sempre foi meu
E que é completamente eu.
E veja se voltarei.

Marina Cangussu F. Salomão

Numen





Sinta menina
Tudo deixar de ser-se
Abandonar-se em pequenas partículas
Tudo se desfazer

Sinta
Pois já é carne
Tronco
Ponte e raiz.

Sinta que já não é mais nada além de tudo.


Marina Cangussu F. Salomão