sábado, 18 de maio de 2013

Peanha

Depois de todo relevo enlameado
Depois de todo chão batido e seco
Depois de tanto rastejo em relevo
Constrói seu castelo idôneo
Gigante e estupendo
Seu retiro e seu trono
Sua pose
Seu trono
E depois de todos os ventos e assaltos
Depois de mantê-lo sobre as costas
Depois de erguê-lo sobre as pernas
Sente os joelhos rotos e a escoliose
E vê em farinha as migalhas que cola com sua própria saliva
E agora a boca seca
A pele flácida
Os olhos sem vistas
E suas palavras
Com mais derrota

Mas por um primeiro instante tatea seus pés
E delineia no tato um altar e uma éfigie (sólida)
Com as mãos daqueles que cultivou.

Marina Cangussu F. Salomão

Iodofórmio

A vida passa
Nem cinza é visto:

Sem tom
Sem som
Desafinada

Passa-me e eu morte

Não sinto, nem finjo
Não faço, nem respiro

Passa-me como fantasma

Sem vulto e sem medo
Sem vida.

Marina Cangussu F. Salomão

Écloga

Na aldeia de minha terra
Quando o sol já é alto
E a barriga vai pesada e cheia
Aquieta-se todo o rebuliço
E se escuta apenas o sol queimando a terra.
Vez por outra se sente o movimentar de uma cria
Mas sem berro ou relincho
E vê-se as moscas rondando as tetas e as flores
Ou os pratos sujos na mesa
Talvez há uma voz de notícia
Abafada por mais de um ronco
Às vezes tem voz na estrada
Outras o motor no tronco
Então se ouve o mexer de cabeça dos cachorros
Lesados das sobras do almoço
Fingem se confundir.
Depois vem a dona com tilintar de pratos e fechar de torneiras
E vem o menino do recado
Vem os gansos atrás das cascas de frutas de sobremesa
No outro quarto é um revirar de cama
E um passar de páginas
E dali do outro canto
É só a saudade que mata
Vendo a estrada longe, quente e vazia.

Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Ode ao Velho Zenon

Vejo o em todos aqueles que seriam você
E desejo abraçá-lo.

És tão grande e poderoso
Em sua pose napoleônica reinante.
Esperto e sagaz.
Espontâneo e triunfante.
Autêntico em seus dons e sons.
Profeta dos futuros que te seguiram.
Dono de teu trono .
Voz de teu pequeno reino feito grande.
Legado de tantas histórias e poderes.
Aquele capaz de enfrentar qualquer mal e qualquer dor.
Aquele encantador,
De quem se perde os erros e os apelos.
O mito de rumores gregos.
O senhor sem medos.
O dos castigos sem lamentos.
Homem de finais purulentos...
Imagino teus olhos roucos, loucos e carentes
Vermelhos do álcool e do choro
Sem grito e sem coro.
Então desejo amá-lo e cuidá-lo, como meu preferido.

Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 5 de maio de 2013

Descrição

Desenha-se o menino exagerado
Na frente pouco iluminada de algumas velas
A sombra o delineia nada fiel:

São tão belos seus traços
Seus abraços e seus encantos

O menino certeiro que vive pelos cantos

É tão sórdido e tão mórbido no cansaço
Mas envolto em mantos: atroz e feroz no regaço

É o menino que vem ao meu espaço.

De sua sombra caminhante retumbo seus limites
E sou incapaz de delineá-lo ou alcançá-lo
Vejo apenas quão grande subtrai seu ser.

Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Envelheci

Aceitei a envelhecênscia
Sem balança e sem pesar
Só rangeres

Marina Cangussu F. Salomão

Sua mão na minha no derradeiro instante

Apague a luz e feche as cortinas
Há tanto me pedes tanto
Que escotomas cintilam quando de olhos cerrados
E apesar da vontade
Ainda não serrei nada
E aquela viga permanece ligando dois lados impossíveis
Sem haver um motivo

Não sei porque há tanto esforço por mantê-la
Para sequestrá-la para dentro de meu interior
Embaixo da cama: tudo fechado
Tudo cerrado
Tudo partido dentro de meus ligeiros pensamentos

Sabe: nunca quis te perder
Nem desejei abrandar meu sentimento
Mas aconteceu antes:
Olhá-lo e ver um estranho
Apesar de tanto amor
E tamanha devoção
Talvez tenha sido este pedestal que te sustenta
É tão estranho ter que aceitar este futuro
Aqui no presente

Desejado meu, continuo confundindo tua imagem com meu primeiro amor.

Marina Cangussu F. Salomão