Depois de todo relevo enlameado
Depois de todo chão batido e seco
Depois de tanto rastejo em relevo
Constrói seu castelo idôneo
Gigante e estupendo
Seu retiro e seu trono
Sua pose
Seu trono
E depois de todos os ventos e assaltos
Depois de mantê-lo sobre as costas
Depois de erguê-lo sobre as pernas
Sente os joelhos rotos e a escoliose
E vê em farinha as migalhas que cola com sua própria saliva
E agora a boca seca
A pele flácida
Os olhos sem vistas
E suas palavras
Com mais derrota
Mas por um primeiro instante tatea seus pés
E delineia no tato um altar e uma éfigie (sólida)
Com as mãos daqueles que cultivou.
Marina Cangussu F. Salomão
"Se a Beleza sonhada é maior que a vivente, dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?" (Cecília Meireles - Solombra)
sábado, 18 de maio de 2013
Iodofórmio
A vida passa
Nem cinza é visto:
Sem tom
Sem som
Desafinada
Passa-me e eu morte
Não sinto, nem finjo
Não faço, nem respiro
Passa-me como fantasma
Sem vulto e sem medo
Sem vida.
Marina Cangussu F. Salomão
Nem cinza é visto:
Sem tom
Sem som
Desafinada
Passa-me e eu morte
Não sinto, nem finjo
Não faço, nem respiro
Passa-me como fantasma
Sem vulto e sem medo
Sem vida.
Marina Cangussu F. Salomão
Écloga
Na aldeia de minha terra
Quando o sol já é alto
E a barriga vai pesada e cheia
Aquieta-se todo o rebuliço
E se escuta apenas o sol queimando a terra.
Vez por outra se sente o movimentar de uma cria
Mas sem berro ou relincho
E vê-se as moscas rondando as tetas e as flores
Ou os pratos sujos na mesa
Talvez há uma voz de notícia
Abafada por mais de um ronco
Às vezes tem voz na estrada
Outras o motor no tronco
Então se ouve o mexer de cabeça dos cachorros
Lesados das sobras do almoço
Fingem se confundir.
Depois vem a dona com tilintar de pratos e fechar de torneiras
E vem o menino do recado
Vem os gansos atrás das cascas de frutas de sobremesa
No outro quarto é um revirar de cama
E um passar de páginas
E dali do outro canto
É só a saudade que mata
Vendo a estrada longe, quente e vazia.
Marina Cangussu F. Salomão
Quando o sol já é alto
E a barriga vai pesada e cheia
Aquieta-se todo o rebuliço
E se escuta apenas o sol queimando a terra.
Vez por outra se sente o movimentar de uma cria
Mas sem berro ou relincho
E vê-se as moscas rondando as tetas e as flores
Ou os pratos sujos na mesa
Talvez há uma voz de notícia
Abafada por mais de um ronco
Às vezes tem voz na estrada
Outras o motor no tronco
Então se ouve o mexer de cabeça dos cachorros
Lesados das sobras do almoço
Fingem se confundir.
Depois vem a dona com tilintar de pratos e fechar de torneiras
E vem o menino do recado
Vem os gansos atrás das cascas de frutas de sobremesa
No outro quarto é um revirar de cama
E um passar de páginas
E dali do outro canto
É só a saudade que mata
Vendo a estrada longe, quente e vazia.
Marina Cangussu F. Salomão
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Ode ao Velho Zenon
Vejo o em todos aqueles que seriam você
E desejo abraçá-lo.
És tão grande e poderoso
Em sua pose napoleônica reinante.
Esperto e sagaz.
Espontâneo e triunfante.
Autêntico em seus dons e sons.
Profeta dos futuros que te seguiram.
Dono de teu trono .
Voz de teu pequeno reino feito grande.
Legado de tantas histórias e poderes.
Aquele capaz de enfrentar qualquer mal e qualquer dor.
Aquele encantador,
De quem se perde os erros e os apelos.
O mito de rumores gregos.
O senhor sem medos.
O dos castigos sem lamentos.
Homem de finais purulentos...
Imagino teus olhos roucos, loucos e carentes
Vermelhos do álcool e do choro
Sem grito e sem coro.
Então desejo amá-lo e cuidá-lo, como meu preferido.
Marina Cangussu F. Salomão
domingo, 5 de maio de 2013
Descrição
Desenha-se o menino exagerado
Na frente pouco iluminada de algumas velas
A sombra o delineia nada fiel:
São tão belos seus traços
Seus abraços e seus encantos
O menino certeiro que vive pelos cantos
É tão sórdido e tão mórbido no cansaço
Mas envolto em mantos: atroz e feroz no regaço
É o menino que vem ao meu espaço.
De sua sombra caminhante retumbo seus limites
E sou incapaz de delineá-lo ou alcançá-lo
Vejo apenas quão grande subtrai seu ser.
Marina Cangussu F. Salomão
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Sua mão na minha no derradeiro instante
Apague a luz e feche as cortinas
Há tanto me pedes tanto
Que escotomas cintilam quando de olhos cerrados
E apesar da vontade
Ainda não serrei nada
E aquela viga permanece ligando dois lados impossíveis
Sem haver um motivo
Não sei porque há tanto esforço por mantê-la
Para sequestrá-la para dentro de meu interior
Embaixo da cama: tudo fechado
Tudo cerrado
Tudo partido dentro de meus ligeiros pensamentos
Sabe: nunca quis te perder
Nem desejei abrandar meu sentimento
Mas aconteceu antes:
Olhá-lo e ver um estranho
Apesar de tanto amor
E tamanha devoção
Talvez tenha sido este pedestal que te sustenta
É tão estranho ter que aceitar este futuro
Aqui no presente
Desejado meu, continuo confundindo tua imagem com meu primeiro amor.
Marina Cangussu F. Salomão
Há tanto me pedes tanto
Que escotomas cintilam quando de olhos cerrados
E apesar da vontade
Ainda não serrei nada
E aquela viga permanece ligando dois lados impossíveis
Sem haver um motivo
Não sei porque há tanto esforço por mantê-la
Para sequestrá-la para dentro de meu interior
Embaixo da cama: tudo fechado
Tudo cerrado
Tudo partido dentro de meus ligeiros pensamentos
Sabe: nunca quis te perder
Nem desejei abrandar meu sentimento
Mas aconteceu antes:
Olhá-lo e ver um estranho
Apesar de tanto amor
E tamanha devoção
Talvez tenha sido este pedestal que te sustenta
É tão estranho ter que aceitar este futuro
Aqui no presente
Desejado meu, continuo confundindo tua imagem com meu primeiro amor.
Marina Cangussu F. Salomão
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