O rio desce com pressa
Seu caminho para o mar
"Se a Beleza sonhada é maior que a vivente, dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?" (Cecília Meireles - Solombra)
O rio desce com pressa
Seu caminho para o mar
Tantas coisas que meus olhos viram
Onde eles guardam todos esses retratos em movimento?
Por vezes se lembram de uma cena
E não a localizam no mapa
Pobres olhos de dentro
Perdidos em suas montanhas de vida.
Como a gente faz com a memória?
Do sabor das frutas novas que comemos
Da sensação de algumas ruas que passamos
Do tato de nossas pontas de dedos
Furtivamente apreciando a textura de uma pele ou de um chão
Às vezes nem cena, mas sensação
E não me lembro de figurino, nem dos atores, nem do cenário
É só um perdido, anônimo, de vida fugaz.
...
Até o fim de minha vida
Como vou guardar tudo isso aqui dentro?
Marina Cangussu F. Salomão
Reguei-me
Por vezes me encharquei
Por outras me esqueci
Por ambas eu quase morri
Mas reguei-me
Sigo regando
Tentando encontrar minha dose certa de água
Marina Cangussu F. Salomão
Depois de um tempo
As falas
Os gritos
Os olhares
Tudo isso me machuca
Entra profundamente em meu vazio
E retorce-me
Como se consumisse minhas tripas
No meu silêncio
Não há paz
Pois emmim há angústia
A angústia de todos os anos de gritos e falas cortantes
Que chegaram em meus ouvidos.
No meio de todo esse barulho
Em me esqueci de saber quem eu sou
E hoje é só um tentar reconstruir
Onde nunca se fez a base.
Marina Cangussu F. Salomão
Às vezes, no passado
Dá uma ovntade de passarão
Então me acalmo e lembro:
A mim, só cabe ser passarinho
Voar ou fugir
Ou voar fugindo
Ou fugir voando
Marina Cangussu F. Salomão
Depois qeu o metrô sai
Abarrotado de gente
Que se espremeu para o trabalho
às 7h da manhã
Empurrando
Ajustando
Se esfregando
E passando raiva
Fica um vazio nos trilhos
Um espaço oco
Igual o existencial
Muita gente já tentou se preencher
Se jogando por ali
Não sei o fim que deu
Talvez o fim.
Marina Cangussu F. Salomão