domingo, 26 de maio de 2013

Percevejo

Nasci com uma raiva torturando-me.
Raiva contra o mundo.

Uma raiva que não passa
A cada crise, a cada bravejar
A cada desespero.

Nasci com uma raiva crescente.
Uma raiva da dor que o mundo ia me causar:

Raiva do que vejo
Raiva do que sinto
Raiva de percevejo
Raiva por não perguntarem 
Por negarem minha vontade

Por me tirarem num parto fora de meu tempo.

Marina Cangussu F. Salomão

Vômito

Não é nausea
É vômito.
Assim: bem mais vulgar.

Vontade de expulsar com esforço
Com ardencia, o colostro
Vontade de cuspir um cuspe nojento
Mais interno
Lamacento
Menos fraterno
Soltar o que não é possível engolir
Vomitar
Destruir
Arrasar a garganta que o contém
Uma tortura
Com mal cheiro e tontura
Verde
Gosmento
Nojento

Todo o nojo que há em mim
E vem do mundo.

Marina Cangussu F. Salomão

Oração de beatificação

Lembro-me pequena
Rezando aos deuses
Por minha solidão
Lembro-me implorando pela salvação

Lembro-me das palavras inocentes
Das crenças descrentes
Do pouco jargão

Lembro-me dos pedidos poucos
Dos desejos afoitos
De minha remissão

Lembro-me criança
Só entre bonecas
Lembro-me sapeca
Rezando por você

E dizia entre sílabas:
Só um em mim
E eu me perder

Sem segundos
Nem minutos
Só você.

Marina Cangussu F. Salomão

Amor

Como se despertasse naquela casa que era minha.
Única que foi minha.
Em manhã fresca e fria.

Ainda esfregando os pés entre a colcha e o colchão
Sente-se o cheiro do primeiro arroz na panela
(minha mae estava ali)
Em seguida, um espirro de meu pai.
Um grunhido e um latido...

Assim foi o sentimento desta manhã.
Distante de tudo isso em tempo e espaço.
Mas é que não importa quando,
Este será o melhor sentimento.
E bem-aventurado aquele que o sente.

Marina Cangussu F. Salomão

sábado, 18 de maio de 2013

Peanha

Depois de todo relevo enlameado
Depois de todo chão batido e seco
Depois de tanto rastejo em relevo
Constrói seu castelo idôneo
Gigante e estupendo
Seu retiro e seu trono
Sua pose
Seu trono
E depois de todos os ventos e assaltos
Depois de mantê-lo sobre as costas
Depois de erguê-lo sobre as pernas
Sente os joelhos rotos e a escoliose
E vê em farinha as migalhas que cola com sua própria saliva
E agora a boca seca
A pele flácida
Os olhos sem vistas
E suas palavras
Com mais derrota

Mas por um primeiro instante tatea seus pés
E delineia no tato um altar e uma éfigie (sólida)
Com as mãos daqueles que cultivou.

Marina Cangussu F. Salomão

Iodofórmio

A vida passa
Nem cinza é visto:

Sem tom
Sem som
Desafinada

Passa-me e eu morte

Não sinto, nem finjo
Não faço, nem respiro

Passa-me como fantasma

Sem vulto e sem medo
Sem vida.

Marina Cangussu F. Salomão

Écloga

Na aldeia de minha terra
Quando o sol já é alto
E a barriga vai pesada e cheia
Aquieta-se todo o rebuliço
E se escuta apenas o sol queimando a terra.
Vez por outra se sente o movimentar de uma cria
Mas sem berro ou relincho
E vê-se as moscas rondando as tetas e as flores
Ou os pratos sujos na mesa
Talvez há uma voz de notícia
Abafada por mais de um ronco
Às vezes tem voz na estrada
Outras o motor no tronco
Então se ouve o mexer de cabeça dos cachorros
Lesados das sobras do almoço
Fingem se confundir.
Depois vem a dona com tilintar de pratos e fechar de torneiras
E vem o menino do recado
Vem os gansos atrás das cascas de frutas de sobremesa
No outro quarto é um revirar de cama
E um passar de páginas
E dali do outro canto
É só a saudade que mata
Vendo a estrada longe, quente e vazia.

Marina Cangussu F. Salomão