Sentou-se à minha frente com a sua armadura de soldado.
Carrancudo. Feroz. A ponto de destroçar qualquer presa.
Me olhava.
Não haviam palavras entre o espaço que nos separava, às vezes alguns gritos.
Mas aquele dia o silêncio me sufocava, porque havia muito e muito tempo a dizer.
Então me lembrei dos outros anos: eu não tinha julgo e não o desenhava mau.
A luz apagada e o som, que ainda hoje me embala, iniciava em meus conhecimentos.
Ele, deitado no chão ao meu lado: Deus.
Eu: pequena.
E não sei se a melodia ou o conforto da companhia, ou a pouca idade; estava guardada de todo mal.
E aquele momento me guardaria de todo mal. Porque tantas vezes quis fugir e desfazê-lo de meus sonhos primeiros. Tantas vezes quis matá-lo e machucá-lo em minhas imagens. Porque não era capaz de perdoar-lhe todos os defeitos que me dera e tudo o que não conseguia enfrentar em mim. Porque foram tantas cenas guardadas, tanta confiança despida. Tanto medo e tanta solidão.
A partir do dia que o perdi, eu nunca mais tive ninguém.
E o perdi tão cedo... Ganharam o álcool e a teimosia, o orgulho e a traição.
Eu: continuei pequena.
Senti falta daquela mão aborrecida e explosiva para me ensinar a levantar e a ver o quão grande eram minhas pernas.
Desde então nasci fraquinha e magrelinha...
Mas tanto mudara nesses segundos acumulados.
Eu, perdida sem o motivo de minha fé, substituído pelo motivo do meu desespero, guardei aquela cena de adoração. E mesmo em todo o meu ódio, consegui manter-me, consegui mantê-lo. Consegui manter a esperança.
Agora, olhei no espelho e vi todo o meu tamanho e todo o caminho que desenhei para trocarmos as posições. E vi que todos os anos foram para construir o instante de retribuir todo o amor que ele me deu sem perceber, sem que eu percebesse. O amor que emanava naqueles gritos e naquelas falas, o amor que se escondia perante o desprezo.
O amor que existe e pronto.
Marina Cangussu F. Salomão
"Se a Beleza sonhada é maior que a vivente, dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?" (Cecília Meireles - Solombra)
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Canção
Tinha algo a dizer
Quando disse.
E algo a olhar
Quando olhei.
Mas nada para fazer
Quando te beijei.
Marina Cangussu F. Salomão
Quando disse.
E algo a olhar
Quando olhei.
Mas nada para fazer
Quando te beijei.
Marina Cangussu F. Salomão
Sonolência
Saudade que amolece
Desfalece a graça.
Saudade que corrige
Dirige a pirraça.
Esmorece quem passa
E adormece quem fica.
Marina Cangussu F. Salomão
Desfalece a graça.
Saudade que corrige
Dirige a pirraça.
Esmorece quem passa
E adormece quem fica.
Marina Cangussu F. Salomão
A vida aqui de dentro
Ele sempre me matou.
Me traiu.
Me humilhou.
Me podou.
Me ignorou.
Não me viu nem me escutou.
Me arrebentou.
Me desesperou.
Me impediu.
Me sufocou.
Me excluiu.
Me negou.
Me abortou.
Não me viu nem me escutou.
Ele sempre se matou.
(Mas o amor nos mantem vivos. Sem querer.)
Marina Cangussu F. Salomão
Me traiu.
Me humilhou.
Me podou.
Me ignorou.
Não me viu nem me escutou.
Me arrebentou.
Me desesperou.
Me impediu.
Me sufocou.
Me excluiu.
Me negou.
Me abortou.
Não me viu nem me escutou.
Ele sempre se matou.
(Mas o amor nos mantem vivos. Sem querer.)
Marina Cangussu F. Salomão
Árvores invisíveis
As árvores vizinhas se entrelaçam
Misturam galhos e folhas
Confundem ventos
Só se distinguem nas flores
Marina Cangussu F. Salomão
("O resto é mudo e intercambiável - árvores e pedras são apenas aquilo que são..." - As cidades invisíveis - Ítalo Calvino)
Misturam galhos e folhas
Confundem ventos
Só se distinguem nas flores
Marina Cangussu F. Salomão
("O resto é mudo e intercambiável - árvores e pedras são apenas aquilo que são..." - As cidades invisíveis - Ítalo Calvino)
O mu(n)do
Se soubesse desenhar o que os olhos veem
Desenharia tantos desenhos
Uns soltos e presos
Independentes, robustos
Fugazes e tristes
Abertos, senhores
Viriam...
Do dançar autônomo das vistas
Do mudar diário dos olhos
Marina Cangussu F. Salomão
Desenharia tantos desenhos
Uns soltos e presos
Independentes, robustos
Fugazes e tristes
Abertos, senhores
Viriam...
Do dançar autônomo das vistas
Do mudar diário dos olhos
Marina Cangussu F. Salomão
Assinar:
Comentários (Atom)