quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Dias duetos

Abreviado o solo
Em visitas doces
Enfeitava os passares
Com medidas de sustento
Que acrescia-lhe aumentos
E retirava o mesmo
De todos os dias,
Punha-lhe altares
Para subir
Repletos de cuidados
E a impressão
Era esculpida até
Nos arredores
De tanto que emanava,
E o que fosse
Era agora mágico
E no fantástico infante
Construído em meio
A corredores recheados de flores
Fazia o si verdadeiro.


Marina Cangussu F. Salomão

Azul

Vago e distante
O olhar contemplava o branco
Concreto e liso
Do teto, possuindo apenas
Seu único sentido.


Antes o mesmo branco
Com textura lisa e suave
Cobria-lhe as vistas
De olhos quase cerrados
Fremitando no abrir-se.


E possuía sentido
Na cautela de guardá-los
Segredando seus fazeres
Em cumplicidade
Do que chamavam terno.


Em ida com pouca fuga
Restou, porém, sua insignificância
Pequena e sem motivos
Então volta o simples teto
Que emanava azul.


Marina Cangussu F. Salomão

sábado, 5 de novembro de 2011

Idôneo

Vivia em solicitude
Um tanto austera
Outro menos perfeita.
Exaltada na admiração 
De seu equilíbrio
Tão harmonioso e incrédulo,
Prole da posteridade
De seu pós-guerra:
Após temores e júbilos,
A equidade sentimental.
Que em sua alma
Desenhava-se em tinta seca
E devidamente cômoda,
Desfazendo-lhe a flutuez
Que nas embolações antigas
Perfumavam o espelho,
Que hoje sem busca
Petrifica-se e perde
Toda a fluidez dos sonhos
Que outrora refletira.


Marina Cangussu F. Salomão

Em construção

Aos do outro ano

Suavemente foram se dispersando
Os tijolos que compunham seu pedestal
Soltando-se um a um
Em busca de uma nova construção
Que fosse mais bela
Onde seriam pintados
Redecorados e alcançassem outra posição
Não aos pés da estátua
Como fizera ser em construção
De efigie fria e autoritária
Que agora sem tijolos
Para compor o sustento de seus pés
Teria que voar com suas asas duras
E manter seu peso de concreto
A flutuar no ar da gravidade
Ou cairia no chão em pedaços
E se faria cascalho
Onde os velhos tijolos se reuniriam
Para edificar-se.

Marina Cangussu F. Salomão

Idílio

Deveras transitávamos
Ignavos por entre calçadas
Sem a mesma pressa
Dos que trombavam
Íamos sem história
Um tanto supérfluos
Pelas esquinas que preferíamos
Já em ignomínia
Não importavam o que pensavam
Ou mesmo seus planos belicosos
Importava apenas
Nosso malabar por entre
A gente e só
Na fuga calma e vagarosa
De mãos dadas
Sendo nosso único medo
Desprendê-las
E vê-as livres com rumos
Independentes e fartos
Mas sem objetivo pleno
Como o que movia
Nossos curtos passos
Pelas calçadas
Que não carregavam
Fardos dos passantes
Mas o próprio peso
De sua felicidade restrita.


Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Melusia amúsica

Digna de admiração pelo
Enfeite externo seguido do que
A discernia e a comprazia


Melusia sabia atrair para si
Os interesses bem definidos
E compreendia possuí-los

Concentrada em observar
Parecia absorta nos pensamentos
Que proviam dos que a rodeavam


Decifrá-los em destreza
Manipular as pedras que lhes partiam
Em seus pequenos olhares silentes


Calada demais para sua visão
Clara e calma de delicado
Temor e confiança


Não expressava-se completa
Ou revelava-se em nudez
Diante de suas palavras


Protegia-se dos erros que conduzia
Saltava-os com pouca devoção
Para poupar-lhes alguns breves instantes


Melusia compreendia que seu canto
Talvez doce em sedução
Seria fatal, mesmo para si


Ao sabê-lo em consequências
Acautelava-se, recolhendo no púcaro
O pouco que lhe emanava. 


Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Alexitímico

Consubstanciava-se ao nada
Em busca de formar-lhe
Uma concretude em estátua
Irrelevando o sopro
Ou mesmo a substância.
Entregava-se à convulsão
De querer ser-se imagem
E em atitudes agraciado
Recoberto pela igualdade.
Marasmática,
Que escondia-lhe a alma,
Amúsica e afásica,
E possivelmente não a possuía.
E nada cônscio e íntegro
Integrou-se aos pueris clubes
Que lhe armazenavam o vácuo.
E em destino mais provável
Não era capaz de transubstanciar
Ou ao menos perceber-lhe
E só, morto, concretizou-se
Em estátua: dura e gélida.


Marina Cangussu F. Salomão