segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Futuro dos frutos

Fomos fortes em demasiado 
Nesse mundo de fraqueza.
Derrotamos muitos passos.
Não paramos, nem sonhamos,
Lutamos apenas.
E a briga nos deixou marca de ferida
E nenhuma vitória.

Não é capaz de perceber 
O que faz a seus filhos?
Sufocando-os em lama
Mais podre que a sua?
Liberte-nos, somente
Para sermos aquilo 
Que nos resta de aves.

Marina Cangussu F. Salomão

Por sobre as árvores

São nesses momentos em que contemplas
Que podes ouvir todos os sons do mundo
Falando de todas as formas ao teu ouvido
Deitado vagaroso na sombra da vazia árvore de outono.
E vês nos olhos fechados todos os passos que te passam
O vento nas folhas e quantos rodopios deram para chegar ao chão
E quantos deram por sobre ele
Sentes a doce e delicada raridade a borboleta
Pousando no mais feio dedo de teu pé
E vês com olhos bem abertos o menino humilhado
As meninas coloridas e os que não se importam
Vês a todos a poucos deles te veem
Mas basta-te as borboletas e as formigas.

Marina Cangussu F. Salomão 

Cinza

Plantei flores em minha janela
Para disfarçar meu cinza:
Aquele que fica do outro lado
Olhando-me todo o dia

E finjo que estou em casa
Abro-a para tocar-me o vento
Mas já nem tenho penas
E as asas são apenas braços

Sentei.
Não poderia voar
Mas chorar a extinção de mim

Marina Cangussu F. Salomão


Desamparada

Curam, mas não libertam
Porque não têm voz 
Presa ao papel
De onde nunca saíram.
E fica imóveis como meus pés
No mesmo chão que a plantaram
Gritando mudas seus desespero
Seu horror ao mundo e a seus olhos.
Gritam: merecendo ao menos um ruído

Marina Cangussu F. Salomão

Paragem dos pensamentos

Como dois tempos que se cruzam
Num rodopio voraz e efêmero
Giro que vem no vento
Rasgando e tecendo
Costurando os dois pontos
Em uma só colcha
Que se chama gente.

Marina Cangussu F. Salomão

Olhos claros

Estes olhos que não estão em qualquer lugar
Se escondem e se negam
Temem a admiração
Estes que estão abafados e calados
Em toda sua gesticulação e dança de cílios
Eles que rodopiam incessantemente
Porque guardaram sua fala
E não conseguem gritar

Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Àquela que me pariu

Posso ter todas as raivas do mundo
Posso culpar-te por tudo
Mas não desperceberei
Que me olhas e me cuidas
Discretamente de teu castelo da grades cinzas
E felicita-se porque fugi.

Marina Cangussu F. Salomão