terça-feira, 9 de julho de 2013

Tempo

Parece que as horas não passam
E os minutos se repetem
Fazendo graça de sua própria bizarrice
O instante suspende em pêndulo
E se tonteia, nauseia, desfalece

Marina Cangussu F. Salomão


Oração

Quero ressonar em meu encosto
Religá-lo a meu pranto
E desmoronar o atuante que me recobre

Pois pesa-me os passos vagarosos
A estreita corrida e seu desespero
O oleiro e eu só

Fantástico a remissão
A demissão de poderes
O vexame:

Blasfêmia pura em verdades.

Marina Cangussu F. Salomão

Eu em você

Sinto o cheiro de tua pele nesta cama quente
O arrepiar de teu pelo por meu zelo
A carícia de tua boca em meu sono...

E o meu desejo mais interno é ser-te.

Marina Cangussu F. Salomão

Poesia

Queria teu abraço 
E eu deslizar meu rosto
Na textura de tua pele
E sentir teu cheiro
Evadindo por cada poro.

De repente a certeza de sermos dois
Distintos e humanos
Que não se completam
Mas se unem e se amam.

Marina Cangussu F. Salomão

Dos passos e dos rumos

E diz-se dos traços, dos ratos e dos choros
Dos mouros. E dos retratos.

E diz-se de estrada, saia armada, fada encantada
Os loiros. Afoitos.

E vai-se indo sem chapéu, sem anel, para um bordel
E fugindo na ilusão doce de cheiro ocre de ovo podre.

Marina Cangussu F. Salomão

Em seus postos

Neste momento te deixo
Te abandono
Vejo seu rosto perdendo contornos
Afastando-se como névoa.
Fumaça.

Nos perdemos:
Nossas lutas são as mesmas
Mas é diferente a posição

E mesmo que nos olhemos, longe
Não é possível ter-nos
No silêncio e no espaço

Porque nossos corações nunca foram nossos
Senão do mundo
E nossos deveres e ideais
Soam nosso suor.

Marina Cangussu F. Salomão

sábado, 6 de julho de 2013

Vinho tinto de sangue

A lua já se pôs
O sol já derreteu
E eu: nem sequer tenho um copo para secá-lo.

Tenho vistas sem extensão.

Tenho alguns livros
De uma má educação.
Mas o alguém que me ensina
Chora sua idealização.

Tenho caminhos sem aptidão.

Estou na rua e sou roubado
Estou em casa: assaltado
Na TV: um ladrão
Nas urnas: seu perdão.

Tenho letras sem canção.

Já soprei os acordes
Entre os bobos das telas
Vinguei a meus lordes
Me estrangulei.

Tenho vontade sem admiração.

Já lutei minhas causas
Já cortaram minhas asas
Me sentaram no chão
Eu fugi da prisão
Pedi por respeito
Pedi por socorro

Mas nem sequer tenho um copo para secá-lo
Nem sequer tenho grito para gritá-lo
Nem armas
Só voz
A sós!

Marina Cangussu F. Salomão