domingo, 20 de julho de 2014

Primeiro verso que ficou em mim

Quem iria num dia de mormaço
Caminhar por onde eu passo
Assim sem mais ou menos

Quem iria neste terreno ter certeza
De ser pleno onde quer que seja
Mesmo que ameno o intuito inverso

Quem faria em qualquer praça
Bem no meio de massas
Cenas de palhaço:
Lá no mormaço do primeiro verso


Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Meu labirinto

E por que a vida não ser simplesmente
Um parque verde em dia de mormaço
Grama. Brinquedo. Crianças. Passantes.
Cachorros. Palhaços.

Por que não ser naturalmente
Uma meditação em banco singelo
Casas. Aromas. Chinelo.

Não ser um tempo em vão
Um amor com vazão

Dessas a que se quer voltar... 

Marina Cangussu F. Salomão



O Labirinto De Novo

Nunca sei por onde piso
E talvez o melhor seria não pisar
Já que sou cega nesse chão amanhecido
Olhos cegos de poesia

Mas a arte é uma cria
Que impulsiona passos
Que cria rastros
E pouco mais que vida

Então sigo interrogando
Desconstruindo
Pisando
E fluindo pelo labirinto

Marina Cangussu F. Salomão

Derretimento

Fale-me de poesias
Ou daquelas cantorias
Mas fale-me
Do tédio, de teu pouco remédio
Do amor que me tinhas
Fale. Grite
Faça-me escutá-lo
Peça-me para derrotá-lo
Discorra. 
Prenda-me em masmorra.
Enquanto descerei meu corpo
Por todo o gramado
Este aqui mal amado
Derreterei-me neste verde
Que sempre foi meu
E que é completamente eu.
E veja se voltarei.

Marina Cangussu F. Salomão

Numen





Sinta menina
Tudo deixar de ser-se
Abandonar-se em pequenas partículas
Tudo se desfazer

Sinta
Pois já é carne
Tronco
Ponte e raiz.

Sinta que já não é mais nada além de tudo.


Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 13 de julho de 2014

Futuro do pretérito passado

As vezes me questiono se aquelas letras iniciantes rabiscadas
Algum dia sonharam ou pelo menos relampearam o que se tornariam
Se como menina pequena deslumbrei um não ser rainha ou princesa
Nem ter muita delicadeza no divagar sobre a verdade.

Porque era tão doce aquela menina 
Tão sutil e pequenina
Que os vestidos rodados eram seus sonhos
Os bordados, os recados. E amores.

E de súbito: continuam os vestidos, assim soltos, sem tato.
E continuam os amores, que hoje são fatos.
Resta saber dos restos..

Mas não importa quem eu era e quem eu sou
Já que tenho mil estórias justificadas por onde a vida debruçou
Eu quero é quem eu era naquele futuro do pretérito

Quem eu seria
Se algum dia adormeceria no decrépito


Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Solidão

Ela veio
Linda e suave
Tocando-me a face
Ora rude ora macia
Acariciando-me a pele 
Anunciando a existência.
Traz-me as lágrimas 
Que há tanto se pendiam nas pálpebras
Precipitadas pelo vento.

Ela apareceu-me
Desta vez exalando orvalho seco
Cheiro de mato.
Junto a ela passam algumas ilustres figuras de alma:
Um casal esbranquiçado e seus dois amigos
Um olhar vazio e meio perdido
Boas tardes e assovios
E tantas bicicletas.

Mas finalmente veio
Embalar-me junto a uma folha de pequenos rastejantes pretos
Meio felpudos
Como a grama e suas cores salpicadas.
Ela chegou
Em dia longo de pouco sol
Depois da ponte
Ao som do encontro de águas
Em um banco tão simples quanto ela mesma
Com algum lodo e parafusos grandes
Madeira grossa
Como se plantado ao chão
Unido a todas as raízes.

E foi isso o que ela veio me falar.


Marina Cangussu F. Salomão