sábado, 12 de dezembro de 2015

Descaso

Foi o encontro do destino com o acaso
Ou o desencontro
Ou tanto faz.
Sei apenas que os trilhos ficaram soltos, 
Sem respostas ou decisões.
As escolhas sumiram e a vida ficou perdida
Num emaranhado de situações.
E sem saber onde passar
E sem saber se vai ficar,
As pernas andaram em hora ou passo exato
Ou errado. Ou de fato
Desataram sem caminhos, sem rumo para a razão.
E não era a vazão,
Porque a retidão era tão rara
Que da leveza não havia o que evadir.
Eram simplesmente corpos deixando as energias de guias falarem por si.
Era descaso com a vida 
Ou algum tópico dela.
Era deixar-se fluir
Ou talvez ebulir.
Era o destino e o acaso casados entre si.

Era o descaso
Formando encruzilhadas.


Marina Cangussu F. Salomão

Seus pelos

Gosto desses fios dourados
Que se escondem debaixo de sua cor marrom.
Mais parece que dizem aos que olham bem perto
(Esses poucos que têm a coragem de se aproximar,
Coragem de se deixarem tocar por sua profundidade)
Dos segredos que você guarda na alma
E que te trazem uma calma sem origem ou explicação.

São secretos de perfeição que você esconde

E que te fazem pertencer a todos os mundos de uma só vez.
E que te trazem mistérios sem porquês.
E que me contorcem por te encontrar em qualquer canto,
Nem que seja em sua nudez.

Talvez por isso sejam dourados
Para lembrar de sua nobreza ou beleza,
Para dizer-te especial.
Para que nunca te coloquem em uma mesa
E te tratem como um banal.

Mas assim como camuflados em sua cor

Você também se camufla para fingir ter um pouco mais de dor.
Esconde essa sua riqueza transcendental,
Essa sua alma perfeita,
Essa colheita de fundo de quintal
Muito mais doce e rara.
E finge ser apenas mais um mortal.
Pois ainda tem medo de brilhar
Muito mais que todos.
E tem medo de mostrar seu sem limite de contornos.


Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 29 de novembro de 2015

Catarse

O moço da rua 15
Disse para ela não se importar com suas paixões.
Ele era um moço estranho que lhe apareceu do nada
Profetizando variações.
Disse que ela não vivia nesses padrões definidos
Pois ela se alimentava de alma, e já não lhe bastava a calma
Em meio a tantos comprimidos.

Disse que a paixão dela vinha pelos olhos que ela lia
Pois ela sugava-lhes as letras para compor poemas
E, às vezes, descrevia temas
Outras eram apenas romances.
Mas não importava o gênero, beleza ou palavra
Ela lia o que ia dentro daqueles olhos sem trava
E se apaixonava pelo que a abalava.

E ela viu que era assim:
Que aquelas almas que ela tocava não lhe davam paixões carnais
Nem vinham para confundir-lhe os jornais:
Era amor mesmo o que ela conseguia
Era amor o que lhe enchia todo o dia.
E sempre foi assim: cachorros, formigas, trepadeiras, flores, árvores, chuvas, humanos
Ela sempre fora sensível a esse ponto
E sempre sentira o que as coisas queriam dizer
E dava-lhes o que lhes caberiam ter

E ela se entregava a essa capacidade que todos têm
Mas que quase todos perdem ao nascer
E que alguns, inclusive, morrem sem saber

E de tanto sentimento incabível em um corpo humano
Tanta troca e empatia
Chegava-lhe à pele e aos órgãos o que sentia
O que o mundo lhe trazia.
Os médicos chamavam de somatização
Mas só quando ela ficava doente.
O que não sabiam era que doença não era o todo pendente:
Ela somatizava quando era amor também:
Ela sentia com a alma e dançava com o corpo e falava com os olhos.
Mas não eram poucos os que a impunham "porém".

Mas então ela se cansou, concluiu o moço avulso,
E resolveu apenas se entregar
E foi amar, mesmo sem contar
Para ninguém.


Marina Cangussu F. Salomão
Ela é fácil de saber
Porque ela se sabe.

Marina Cangussu F. Salomão

Gramática do bemquereres

Ela não sabia apreciar
Aquilo que não lhe era esperado
Então ela colocava padrões
Desfilava em limitações
E esperava o que estive pronto e em forma
Com formato que lhe encaixasse

E ela desistia sem tentar
Construía para desinventar
Justificava justificativas tolas
E se perdia em sua gramática sintética
De regras estúpidas
Conjugando verbos em tempos inexistentes

Mas era ela quem se perdia
Era ela quem escolhia
Ela quem não fazia
Quem desmerecia
E ía.


Marina Cangussu F. Salomão

Entulhos

Porque eu me apaixonei...
Começava aquela carta escrita
Que ia junto de tantas outras
Empilhar-se na despensa:

Eram coleções de dores sem rancores
Aquele entulho de amores
Já sem flores, sem cores
Horrores.

Um dia, dizia, abriria uma franquia
Em que se faria, por telepatia
A entrega só do que permanecia
Sem alforria.

E seria a liberdade com vontade, 
Daquele tanto de vida sem novidade
Que iria sem maldade
Viver sem ter idade

Pois o amor 
Merece o fulgor, de viver em calor
Apreciando o torpor
De não saber onde se por
Quando se está livre

Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Eleição

Estou sem rumo
Sem foco
Sem jeito.
Estou assim como prefeito
Em época de eleição:
E falo bestagens
Em minha cabeça.
E faço moragens
Em construção
Em demolição.
Estou do avesso
E não amorteço
Minha queda.

Marina Cangussu F. Salomão