quinta-feira, 7 de abril de 2016

Tons

Voltei a rodopiar em poesia dentro de mim.
Depois de miríades de saudades de meus giros eternos 
Em torno de meu próprio ego corrompido de tanto eu.
E fiquei a reviravoltear-me em minha dores com pintores a salpicar.
Mas sem tanto foco no sofrido, atrevido e mal-engolido
Hoje vejo mais esse risco colorido que me agreguei.
A colorir-me a vida nos tons que aceitei
Roxos, claro, rarefeito e muito azul.

Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Das incompreensões irresistíveis da incredulidade

Ele é um desejo irresistível de planejar futuros
De decorar as salas
De colocar cozinhas, janelas e alas
Em uma casa qualquer
Ou então desfazê-la
E desejar nunca tê-la 
Parada em um só lugar

Porque ele também é uma vontade incompreensível
De comprar passagens
De arrumar malas 
De sair a caminhar
Colocar tudo nas costas e no chinelo um pé
Ou mesmo voltar de marcha ré
Para na cama descansar

Ele é uma delícia incrível 
Cheio de recheios e sabores
De filmes, musicas e rumores
Mesclado em algumas historias

Ou então um prato vazio
E a vida saciada.

Marina Cangussu F. Salomão

Mulheres e seus interiores (nos interiores)

Elas ficam todas à janela
Qual tagarela
A bisbilhotar

E voltam e sentam na cozinha
Loucas por compartilhar
Notícias afetos amores
Coisas por se falar

Umas sentam qual moças
Outras um pouco toscas
Sem as pernas cruzar

E relaxam os gestos
Entregam os restos
Nem se lembram do lar

Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 13 de março de 2016

Maturar

Às vezes surpreendo-me com minha capacidade racional
Com minha habilidade para silêncio

Pois sempre soube-me uma tagarela sentimental
Gritando amores por entre os cantos

Que assusta-me o meu cansaço:
Cansei das decepções de poucos santos
E dos exageros não correspondidos

Então resolvi usar as habilidades de meu outro extremo
E hoje só consigo dizer o que da razão é compreendido

Não que já não sinta
Tudo continua girando pleno
O fato é que resolvi deixar só o que me é ameno

E me fez bem

E me disseram madura

Pobres almas.

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 7 de março de 2016

Um pouco mais perto

É bom aconchegar-me em tua cama
Sentir-te o cheiro de proximidade
E a textura de teu lado 
Que se misturam aos sentidos que me provocam teu lençol 
E amenizam todas as coisas que não são do aqui.

Então deixo-me absorver pela maciez de tua pele 
Que me aconchega e acolhe
Enquanto tu me envolves delicadamente 
Sem retorno
Permitindo que a delícia invada-me vagarosamente no embalo de teu ritmo

E nada mais é de mim a não ser sensores

Tudo é sinestésico


E esqueço das horas, das luzes, do tempo
Pois se chuva se sol se escuro ou claro
Ficarei a qualquer instante neste estado supremo de aceitar-te
De doar-me maravilhada os pedaços ou meu eu inteiro
Pois sei que não me roubas nem me tomas
Me devolves um pouco mais completa.

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Lições

Amar só e somente
Saber que é amor o que se sente
Sem desculpas, sem culpas
Sem exageros, sem ligeiros
Amar o objeto amado
Ter seu Outro
Tê-lo inteiro
Amá-lo sorrateiro
E deixar que o amor seja
E que esteja
Entre nós.


Marina Cangussu F. Salomão

Escolhas

Ele se faz desnecessário
Com frequência
E não preciso de sua presença
Nem de sua constância

Porque quando se vai
Não me deixa vazios
Nem me deixa distâncias.

E é assim que eu sinto a sua importância
Não porque sem ele não dá para viver
Ou porque sem ele posso enlouquecer.

Mas porque dele eu escolhi ouvir os sons de existência
Suas falas e opiniões
Suas ideias sem restrições
Seus cantos e seus profundos.

Tudo o que não necessito
Necessariamente
Mas gosto e escolho ter.
Ele é assim: uma escolha que posso ser.

Marina Cangussu F. Salomão