quinta-feira, 7 de abril de 2016

Às vezes o mundo parece cruel

Parou.
No vento ameno.
E ameno era palavra corriqueira.

Passou o moço de boné azul.
Chegou a menina sem querer brincar.

E veio o vento de novo.

Foi-se a mãe nervosa.
Antes era o pai que ameaçava.

Acho que vai chover.

Ficou.
Amenizado.

Veio o pombo comer algo no chão.
Ouviu-se um canto de sorriso.
Passou outro homem caminhando.
E veio um pai querendo futuros não machistas.

Bom homem _ eu julguei.

Era uma praça.

Mulheres de lenço no cabelo.
Não havia muita pressa.

Às vezes quem não passa ensina aos passantes, pensei.

Meio dia. 
Veio a fome.
Quase todos.

Agora uma pessoa com chinelo maior que o pé.
Gente grande.

Só não sei se se sentia grande mesmo.

O que eu sentia era fome.
Fui.


_Acho que algumas pessoas não entendem o quanto é bom. Eu também não entendi por um tempo.
Mas sem pretensão agora. Eu só estava descrevendo o que é bom para mim.
Não é universal.
Sei lá... Às vezes o mundo parece mais cruel dentro de um hospital do que em uma praça.

Marina Cangussu F. Salomão

Cantos e sons





Sítio Santo Sé - Topazio


Posso andar por vários cantos e lugares
Distantes, inéditos, famosos, estrangeiros.

Mas tem sempre aquele canto a que quero voltar.

E que é tão confortável e tão inusitado
Que se torna novo novamente.

O meu costuma ser meu pedaço lá no mato
Com a poeira seca. O mato alto. As frutas no pé.

Minha mãe do meu lado mastigando uma maçã
Ansiosa. Cheia de planos. Ela e eu.

Aconchegante, eu diria. Deitada na rede.
Ouvindo os sons do trabalho de meu pai.

Sei que já não sou mais uma criança para necessitar tê-los
Mas nem por isso não sou humana para não querê-los.


Marina Cangussu F. Salomão

Tons

Voltei a rodopiar em poesia dentro de mim.
Depois de miríades de saudades de meus giros eternos 
Em torno de meu próprio ego corrompido de tanto eu.
E fiquei a reviravoltear-me em minha dores com pintores a salpicar.
Mas sem tanto foco no sofrido, atrevido e mal-engolido
Hoje vejo mais esse risco colorido que me agreguei.
A colorir-me a vida nos tons que aceitei
Roxos, claro, rarefeito e muito azul.

Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Das incompreensões irresistíveis da incredulidade

Ele é um desejo irresistível de planejar futuros
De decorar as salas
De colocar cozinhas, janelas e alas
Em uma casa qualquer
Ou então desfazê-la
E desejar nunca tê-la 
Parada em um só lugar

Porque ele também é uma vontade incompreensível
De comprar passagens
De arrumar malas 
De sair a caminhar
Colocar tudo nas costas e no chinelo um pé
Ou mesmo voltar de marcha ré
Para na cama descansar

Ele é uma delícia incrível 
Cheio de recheios e sabores
De filmes, musicas e rumores
Mesclado em algumas historias

Ou então um prato vazio
E a vida saciada.

Marina Cangussu F. Salomão

Mulheres e seus interiores (nos interiores)

Elas ficam todas à janela
Qual tagarela
A bisbilhotar

E voltam e sentam na cozinha
Loucas por compartilhar
Notícias afetos amores
Coisas por se falar

Umas sentam qual moças
Outras um pouco toscas
Sem as pernas cruzar

E relaxam os gestos
Entregam os restos
Nem se lembram do lar

Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 13 de março de 2016

Maturar

Às vezes surpreendo-me com minha capacidade racional
Com minha habilidade para silêncio

Pois sempre soube-me uma tagarela sentimental
Gritando amores por entre os cantos

Que assusta-me o meu cansaço:
Cansei das decepções de poucos santos
E dos exageros não correspondidos

Então resolvi usar as habilidades de meu outro extremo
E hoje só consigo dizer o que da razão é compreendido

Não que já não sinta
Tudo continua girando pleno
O fato é que resolvi deixar só o que me é ameno

E me fez bem

E me disseram madura

Pobres almas.

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 7 de março de 2016

Um pouco mais perto

É bom aconchegar-me em tua cama
Sentir-te o cheiro de proximidade
E a textura de teu lado 
Que se misturam aos sentidos que me provocam teu lençol 
E amenizam todas as coisas que não são do aqui.

Então deixo-me absorver pela maciez de tua pele 
Que me aconchega e acolhe
Enquanto tu me envolves delicadamente 
Sem retorno
Permitindo que a delícia invada-me vagarosamente no embalo de teu ritmo

E nada mais é de mim a não ser sensores

Tudo é sinestésico


E esqueço das horas, das luzes, do tempo
Pois se chuva se sol se escuro ou claro
Ficarei a qualquer instante neste estado supremo de aceitar-te
De doar-me maravilhada os pedaços ou meu eu inteiro
Pois sei que não me roubas nem me tomas
Me devolves um pouco mais completa.

Marina Cangussu F. Salomão