quarta-feira, 17 de junho de 2020

Bruxaria

Eu sinto o cheiro das flores

Eu sinto o cheiro dos ventos

Às vezes adivinho o que vem vindo

Nas mudanças de estações

De luas e de tempos.

Marina Cangussu F. Salomão

Desgraça

Havia um homem fedido no metrô

Havia um homem fedido no vagão K056 da linha vermelha no horário de pico

Oh deus, o que fazer com o homem do metrô?

Excluído em seu canto. Único canto com espaço.

Havia um homem e uma multidão amontoada.

Havia um homem e seu cheiro.

O metrô parou parado no meio do caminho.

Havia (no passado) um homem jogado na via.

Pobre da multidão amontoada parada com o homem fedido e o home na via.

Podre homem fedido.

Salvou-se o ex homem da via.

Marina Cangussu F. Salomão

Cheiro

O cheiro dele deve entrar 
Nos poros das paredes e dos móveis
Deve alastrar-se e impregnar as moléculas
Deve excitar cada átomo
Invadir o lençol, o colchão, 
A madeira, o azulejo

Porque mesmo se ele vai embora
Se abro portas e janelas
Se faço faxina ou acendo incenso
O cheiro continua pela casa

O cheiro dele deve estar em mim
Em minha pele, em meu cabelo
Em minha saliva
Onde quer que tenha me tocado


Marina Cangussu F. Salomão

Nas tardes de Domingo

Venha
Deite-se nessa rede comigo
Deixe que o balanço embale nossos pensamentos exaltados
E nossas frustrações do dia-a-dia
Venha
Vamos dormir abraçados o sono da tarde de domingo
E nos amar quietinhos
O amor dos amantes de todo dia
Venha
Deixe que seu cheiro entre em minhas narinas
E meu coração se conforte com a proteção de seu carinho
E que eu te acolha em meu ninho
Venha
Que possamos fazer planos de presentes e futuro:
Deixe os pensamentos voarem soltos em qualquer sonho
Qualquer coisa que seja nossa
Venha
Case-se comigo na tarde de domingo

Marina Cangussu f. Salomão

domingo, 3 de junho de 2018

Esperança

Eu espero por ele
Eu espero pelo tempo
Eu espero por elas
Eu espero a vida
Espera-me a minha família
Eu espero o salário
Eu espero no trabalho
Eu espero por ele
Eu espero a ligação
Eu espero o garçom
Eu espero a comida
Eu espero o sol nascer
O cachorro me espera
Eu espero a chuva passar
Eu espero o moço me olhar
Eu espero a hora do ônibus
Eu espero a próxima folga
Eu espero ela primeiro me olhar
Eu espero a criança
Eu espero a festa
O homem me espera

A vida é cheia de esperança



Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A maré impossível

Mar,
Posso ficar aqui sendo banhada por tuas águas?

Me acalme. Me afogue.
Dê-me ar aos pulmões. Retire-o de mim.
Pois há tanto cansaço ali fora.

Posso derramar-te tudo aquilo que me vem profundo
Encharcando-me mais que a ti?
Falo dessas coisas que consternam ao olhar o mundo...

Posso, mar, ter-te me envolto
Para que me protejas e me ensines a seguir
Apesar de marés e invasões?

Sim, sinto-me invadida desvairadamente 
Todos os dias
Nesse jogar de mundos em minha cara
Como tapas (ou pior que isso).

Chega um ponto que o único que quero que me invada é você, mar,
Cheio de segredos da vida que ainda me falta descobrir.


Marina Cangussu F. Salomão

Poesia com fim

Há chuva lá fora
E aqui dentro é apenas música
Alta, expansiva
Ocupando todas as gretas das janelas e portas fechadas
(He doesn't like to open up very much)
E o cheiro de nosso suor com banana cozida
Para o desjejum.

Nas ruas correm crianças negras.
Me diz o que fazemos aqui: 
tão estrangeiros!
Quem vai entender esse casal de loucos
Com suas dores familiares 
E alguns amores complementares?
Afinal, no fundo, a resolutividade dele é só amor
E a minha doação é a transformação de meu rancor

Lá na esquina da vista da janela do quarto
Que abro para fumar o meu último cigarro da vida
Há uma menininha de 3 ou 4 anos em seu balanço
Tão entretida em seu próprio mundo e imaginário
Que me comove

Acho que ela é como nós
ou nós como ela.

Imaginando mundos de unicórnios de salvação
Salvação de guerra, da política do país,
Salvação da história de nossos pais
E de tudo mais que envolveu a nossa conversa pré-sexo
(Ai loucos!)


Let us, at least, live our lives, Marina. He said inside my mind.

Aí o poema acaba.


Marina Cangussu F. Salomão