quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A sorte

Hoje eu não comi nem bebi nada
Hoje eu apenas descansei
Exausta da vida
Repousei meu corpo ao solo
E descansei descansei 
Até perder o corpo e libertar a alma
Sim. Falo da morte
Esta que sempre esteve em meus pensamentos e medos 
Desde o início da pequenez
Porque talvez ela seja a única que me responda
A única que me compreenda e me suporte
A morte
Companheira.

Marina Cangussu F. Salomão

A Vespa

Um dia me derramarei de tanta solidão
De tanto não saber por completar
E tantas vistas acumuladas nos anos

Um dia serei velha e já não suportarei a distância
A vacância dos dias lotados
A insignificância de meus momentos desolados

Um dia, antes da vida finda,
As borboletas vãs irão murchar
E junto com minha doce ilusão de infinito
Apodrecerei.

Marina Cangussu Fagundes Salomão

CamaLeoa

Já não mais vou me perder nesses camaleões transcendentais 
Que mudam suas cores a cada tom de paisagem
Vou me deixar perder-se, 
Me vagueando a cada lombada ou degrau da estrada nova
E seja frio ou marrom, 
Colorirá de amarelo seus tons. 
Porque agora eu sou o ambiente
Eu serei contente
Eu darei o tom!


Marina Cangussu F. Salomão

Triste fim de policarpo

Fim desses cadáveres perambulantes
Fim de meu próprio corpo decrépito
Fim dessas desonras desvanecidas
Fim dessa falta de ego, falta de libido
Fim dessa alcova no meio da praça
Fim dessa hipocrisia diáfana
Fim de mim mesma
Finde nós

Agora começaremos tudo 
Diante todos os olhos
Diante meu espelho

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Na perdição dos encontros

Em meio a uma catarse
Sendo o meio de uma bagunça e meu desespero
Bem no centro de meu ícone perverso
Sucumbo.
Alucinada e perdida
Salpicada entre memórias
Bem no meu passado

Marina Cangussu F. Salomão

Epifitologia

Aos poetas lhes é permitido tudo
A dor, a arte, a vontade, a ganância
O desespero, o drama, a corte, a morte

Mas aos homens: esses pobres imortais
Nada lhes cabe
Nem a sorte da própria vida.


Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Infinitude de um parto

Aparecia grande, com resquícios luminosos de uma vida infinita. Gigante. Incontrolável. Terrível.
Era a vista que tinha daquela cidade após um ano: 12 meses de abuso físico, emocional, quase sexual. Abusos e desfechos constantes.

Tudo começa nas buscas forçadas de onde estar, negando a resposta óbvia e pronta, culminada em descoberta de gritos, choros e desesperos de um "eu não quero ir". Não! Eu não queria ir: não queria mais um parto prematuro a termo, porque mesmo completado o tempo não haviam contrações. Eu nunca tive tempo de contrações, sempre me tiraram antes de minha vontade.
Mas não importa. Fui. E a casa era silêncio quieto e aterrorizador. A tarde soava longa, amarela. O mundo distante e eu em torre alta. Quadrada. Nas linhas: ausência, trabalhos, serviços, ocupada.
E foi-se indo tempo... Foi-se indo falsos... Esquecimentos. Na memória nada além de sentimentos, que não se deduzem em dicionários, não falam, nem calam. Segredos.
Após um ano de derrota: a volta. Por escolha, não por babaquice. Por vexame, enxame de caminhos. Ou talvez pelos sonhos e suas ruas.
Talvez um abraço, um perdido, um fim, algumas palavras poucos ouvidos. Um retiro. E nele um deus que eu deixei de amar: era um deus forjado, forçado, enfiado goela abaixo. Diferente do paciente, consolador,que permitia minha inocência.
Inocência essa arrancada em discursos constantes e castrados de ciência e gozo e só. Eis a vida e seu significado: um prazer de 10 segundos.
Mas não era bem o que eu queria. Desejava apenas o instante. A epifania. O prazer de ser sem fim. Em que o tempo só acaba quando decido me movimentar.


Marina Cangussu F. Salomão