Acordei muito cedo, todos na casa ainda dormiam. Eu ouvia só o som dos pássaros a despertarem.
"Se a Beleza sonhada é maior que a vivente, dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?" (Cecília Meireles - Solombra)
quarta-feira, 29 de maio de 2024
Coqueiro
Mãe D'Água
Ainda trago o Tapajós em mim
Vão
Um vão
Pode ser
Um pouco
Vil
E vazio
Vulnerável
Um vão é entre
Entre meios
Entre saídas
Entre entradas
Ele é um ir
Que ainda
Não foi
Um vir
Incerto
No futuro
Mas um vão
É uma oportunidade
De fugir
De seguir
De decidir
De pausar
Em Minas um vão
É topar!
Vão? Vão!
Marina Cangussu Fagundes Salomão
sábado, 25 de maio de 2024
Desejo raro
Neste exato momento eu não desejo nada.
É um raro momento em minha vida
Se é que já tenha existido.
Devo celebra-lo.
Celebra-lo é desejar a celebração
E desfazer-me de minha raridade
Então, me mantenho estável no Não
Marina Cangussu Fagundes Salomão
Sertão
Ser tão pleno
Na secura
No rachado
No calor
No vento sem chuva
Ser tão lindo
No que é teu
No seu tempo:
De flores
De chover
De brotar
De comer
Ser tão seu
E nada mais.
Quem disse que é difícil é porque nunca tentou viver:
Ser tão apaixonante
Ser tão terra, chão, raiz
Ser tão força
Marina Cangussu Fagundes Salomão
Mergulho
Mergulho nesse mar profundo
E perco as forças da razão
Olho em volta e tudo é água ou emoção
Me afogo? Ou dou vazão?
Marina Cangussu Fagundes Salomão
Recortes
O sol desde sem pressa
Seu caminho atrás da montanha, do mar, do rio.
Todo dia ele muda um pouco o tempo,
Definindo o tempo do mundo.
Marina Cangussu Fagundes Salomão
Silenciar
Silêncio
Silêncio se fez quando o sol adormeceu
Ser celestial
Divino
Imponente
Também se faz silêncio
quando ele comanda e controla tudo
com sua luz e calor
às 15 da tarde
Silêncio
É reverência
Admiração
Silêncio
Para ouvir o sol murmurar:
Shh acalmem-se,
Silêncio.
Marina Cangussu Fagundes Salomão
Rio resiste
O rio desce com pressa
Seu caminho para o mar
segunda-feira, 11 de dezembro de 2023
128GB
Tantas coisas que meus olhos viram
Onde eles guardam todos esses retratos em movimento?
Por vezes se lembram de uma cena
E não a localizam no mapa
Pobres olhos de dentro
Perdidos em suas montanhas de vida.
Como a gente faz com a memória?
Do sabor das frutas novas que comemos
Da sensação de algumas ruas que passamos
Do tato de nossas pontas de dedos
Furtivamente apreciando a textura de uma pele ou de um chão
Às vezes nem cena, mas sensação
E não me lembro de figurino, nem dos atores, nem do cenário
É só um perdido, anônimo, de vida fugaz.
...
Até o fim de minha vida
Como vou guardar tudo isso aqui dentro?
Marina Cangussu F. Salomão
Flor
Reguei-me
Por vezes me encharquei
Por outras me esqueci
Por ambas eu quase morri
Mas reguei-me
Sigo regando
Tentando encontrar minha dose certa de água
Marina Cangussu F. Salomão
Barulhos
Depois de um tempo
As falas
Os gritos
Os olhares
Tudo isso me machuca
Entra profundamente em meu vazio
E retorce-me
Como se consumisse minhas tripas
No meu silêncio
Não há paz
Pois emmim há angústia
A angústia de todos os anos de gritos e falas cortantes
Que chegaram em meus ouvidos.
No meio de todo esse barulho
Em me esqueci de saber quem eu sou
E hoje é só um tentar reconstruir
Onde nunca se fez a base.
Marina Cangussu F. Salomão
Voar ou fugir
Às vezes, no passado
Dá uma ovntade de passarão
Então me acalmo e lembro:
A mim, só cabe ser passarinho
Voar ou fugir
Ou voar fugindo
Ou fugir voando
Marina Cangussu F. Salomão
Metrô de São Paulo
Depois qeu o metrô sai
Abarrotado de gente
Que se espremeu para o trabalho
às 7h da manhã
Empurrando
Ajustando
Se esfregando
E passando raiva
Fica um vazio nos trilhos
Um espaço oco
Igual o existencial
Muita gente já tentou se preencher
Se jogando por ali
Não sei o fim que deu
Talvez o fim.
Marina Cangussu F. Salomão
domingo, 30 de maio de 2021
A cidade
As últimas luzes já se esconderam
Se foram lentas e tardias na noite de verão
quarta-feira, 17 de junho de 2020
Depletado
Da metade das coisas
Leva uma maturidade incompleta
Uma expectativa depleta
Já não tem mais o brilho de um princípio
Nem carrega a sabedoria do final
Isso da metade das coisas
Cabe por completo a crise
Inconstante incerteza de certo, amor, preguiça
Tanto ainda por caminhar apesar do caminhado
Tanto ainda por planejar apesar do planejado
Queria eu um tempo para viver lentamente.
Já se vai um ano de silêncio
Com poesias rabiscadas em papel rascunho
Que se dirigiam diretamente ao lixo
Já se vai um ano ou talvez mais
Que pouco faz sentido o que vejo e o que sinto
E gostaria que tudo isso não se replicasse:
As misérias que se vê ao penetrar a casa de um humano
Ao entrar na vida, perscrutar a mente...
Fico admirada com a dureza da nossa espécie.
Mentiras que dizem a verdade
Mas quem se importa com todas as verdades mentirosas que surrupiam nosso ser por aí?
Eu escrevi algumas palavras tortas em folhas avulsas e cadernos
Que foram para o lixo depois de anos guardados empoeirados no armário.
Quem lerá palavras soltas que trazem qualquer reflexão dispersa?
Nem eu reli antes de decidir por desfazê-las.
Eu pensei algumas coisas e disse outras ou parte delas. Ninguém ouviu.
(Fique no metrô vendo os seres humanos por 5 minutos e verá que ninguém escuta.)
Absolutamente ninguém. Nem aquela pessoa que você paga para isso.
No final eu quis desistir. Desistir de quê?
Fiquei tão confusa que desisti de desistir.
Eu me sentei no meio-fio da marginal
E deixei os pensamentos passarem como os carros que passam.
Eu escrevi algumas mentiras em minhas costas.
Mas elas estavam certas.
Só se é livre quando se recorda.
Oração
Deus deus deus esteja comigo
O nascer do sol respondeu:
Eu estou com você.