quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Entropia

Não há poesia que ecoe em meus ouvidos
Um cântico para essa existência
Não há aquela que dance como borboletas
Envaidecidas de sua beleza tão curta
Ilustrando seu destino
Como aqueles pássaros livres no céu
Rodopiando por entre a liberdade e a antítese
Não há. De tão encantadora e desejante que és
Porque sua beleza está em sua contradição:
Ao mesmo tempo triste e tão senhora.


Marina Cangussu F. Salomão

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O pó que somos nós

Não viveremos mais que décadas.
Se pensarmos que décadas
É o que já vivemos
E que nossa vivência
Nada traz de relevante:
Pr'onde tange essa existência ausente?
Dentre rebeldias inóspitas
Que a ninguém aflige
E rodeia a imensidão do nada.
"Porque ele conhece a nossa estrutura,
ele se lembra do pó que somos nós."
(Sl 103, 14)


Marina Cangussu F. Salomão

Depois

"Agora o meu conhecimento é limitado,
mas depois conhecerei como sou conhecido"*
Hoje, finalmente compreendo
O famigerado devaneio
de meu percurso tão longo.
Sinto a sombra de Pandora
Rodear-me a alma
E posso ver o contorno
Daquilo que sempre busquei.
Sinto que o meu depois chegou.


Marina Cangussu F. Salomão

*1 Coríntios 13, 12

Longe de mim

Camille Monet on her Deathbed - Claude Monet

"Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte."*


Esperei-te incansavelmente
por tantas estradas
Desejei-te faminto,
amando a clareza de tua imagem
Abandonei o labirintoso 
caminho que me afastava
Esperei-te chorando
Agora vens tão sutil
Mas sua presença marca-me
Tu gelas as linhas que percorrem meu corpo
Acalenta a frequência de meu peito
E confesso que te rejeito
A solidão que tive
me impulsiona a afastar-te 
Sei que inevitavelmente me levas
mas saiba que ainda te amo
Longe de mim.


Marina Cangussu F. Salomão

*Mário Faustino

Minha carta de amor

The Walk. Lady with a Parasol - Monet
Aqui dentro há tanta mágoa,
Mas a vida chama-me à janela
Com carinho e impaciência
- antes ela fluía tão facilmente.
Falta-me a válvula de escape.
Saudades do fogo que nunca deixou de ser brasa,
Mas que, mesmo assim, morreu.
Ah, são tantas as lembranças que confesso:
Ao aproximar-me do quadrado de vidro
Sinto que canso da luta vã.
Dos sonhos perdidos: a procura de nós.
Hoje vivo pelo futuro. Mas pelo menos vivo.
Saudades de você, vida!
- antes ela fluía tão facilmente.


Marina Cangussu F. Salomão

Decidir

Se as decisões tomadas
mudam a rota:
fique estática vida
tenra e terrena.
O que se busca, 
ou deveria buscar, 
não é as sutilezas 
da futilidade capital,
mas da vida terrena
que nos encaminhe para o céu.


Se as decisões tomadas 
definem a rota:
indefina futuro 
vil e assustador.
O que se constrói
não é a base efêmera
do tempo não presente,
mas da vida metafísica
que nos encaminhe para o céu.


E se as minhas decisões 
são minhas.
Deixe que sejam.


Marina Cangussu F. Salomão

A difícil questão de viver

Minha primazia foi não
E teus sons ecoaram pela existência
O não consumiu-me as primícias


Essa palavra acompanhou-me 
E sonorizou-se para o futuro natural:
Para a normalidade marxista


Outra vez sobressaiu-se
E rejeitou o que me vinha
E qualquer mudança determinista


Mais velha retornou
Sem perder o dom de desapontamento
E afastou-me do teatro diário e contratual


No fim de tudo ela apareceu-me tão linda
Que não resisti aos seus encantos
E neguei a morte eterna


Mas pronunciá-la não é qualquer encenação
Requer forçar-se à dor do desgaste
Do onírico desejo.


Marina Cangussu F. Salomão