sábado, 10 de setembro de 2011

Coração cristão

Diria que os menos não poderiam 
Sobrepor-se em mais pesares,
Pois diante do limite sóbrio de escolhas
Não há mais a que reduzir.
Mas diante de meu coração cristão
E da mente pagã,
Questiono o que real é menos
E quem seriam.
Já que adjunta,  inaceitavelmente,
Ao hierárquico, tenho o prazer
De duvidar do comparativo
Em soltos frases com pautas na igualdade,
Mas tão contra e certamente barroca
De finos altares e chão.
Mas internamente vejo a dissonância
E como quando criança
Divido-me com menos,
Pois sempre terão mais a me dar:
Em vidas tão simples
E fartas com o desenvolver pendente
E a luta por mover-se no aço ignóbil,
Mas esperançosamente maleável.


Marina Cangussu F. Salomão

Escombros

Um pouco blasé, ou mesmo irritadas
As palavras já não se unem tão sonoras
E o canto que existe pouco expande-se
Em forma de contraste com os deslizes
Aos quais coroa sem pretensão
À espera de contornarem-se em melodia.
Deve ser toda a preocupação
Que toma o espaço na ânsia de se construir
Concreta e não suposta em possibilidades.
E tão repleto em ocupações precoces
Espera-se e nada atua, em vão
Mas vê a vida passar não lhes permite nada
A não ser vê apenas por osmose completa
E pouco recebe ou muda: blasé!


Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Solilóquio

Se compreendesse a falta vã
Que me provoca e desconcentra
Controlaria estes pensamentos esparsos
Que me flutuam a teu encontro
Cômodo de repleta saudade
E ligeiramente vermelha
Em tons cada vez mais exaustos
Maldiria a distância
Que me consome em descompassos
E neste instante solta e livre
Das amarras que me provoca
Seria plena e confabulada
Em suas estórias sórdidas
E tão encantadoras.


Marina Cangussu F. Salomão

Asilo

Elas tinham sorrisos frágeis
Na ausência das molduras
Que não saberia dizer se partem
Das perdas ou das quedas


Tão sozinhas e somente elas
Povoavam seus dias em saudades
Lembranças supremas de outros tempos
Menos perdidos e menos ao vento


Estavam jogadas a um canto
Com alguma comida e espanto
E fariam festas ao se verem
Nuas de qualquer contentamento


Uma cantava como pássaro
E ilusória erguia-se em voz frágil
À espera do único voo
Que a libertaria do chão


Outra incomodava-se por contenção
Por que ririam tanto se o espaço
É breve e a espera eterna
Em dias fartos de mesmice


Aquela toda enfeitada
Com brincos por toda a camisa
Só não tinha palavras
Que explicasse o que sentia


Pois a saudade era grande
Do lugar que não conheciam
Mas a vontade era imensa
De descortinar-se em voo solo.


Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Apolo

Quereria eu imaginar 
Essas tardes quentes
Um pouco diferentes
Nós dois soltos pelo litoral
A flainar suaves
Por entre as ondas.
Quereria eu nós dois juntos
De mochilas nas costas
A fugir em silêncio
Para onde haja mar.
Em sossego repentino viveria
O coração em bater suave
Qual vento leve que lá há.
Quereria muito 
Nestas tardes quentes
A companhia ilustre do deus mar
Para em suas águas serenas
Sofrer o doce deleite.
Essas tardes quentes
Seriam bem melhores
Se ao meu lado tivesse 
O que meus olhos desejam ver.


Marina Cangussu F. Salomão

Mesmice

Lembra que prometemos 
Nos amar todos os dias
Sermos só e completos
Lembra que a minha paixão 
É intensa e louca 
E se entrega sem reclusas
E não importa com vozes e falas
Importa apenas com a quimera
Que provém do que deseja
Então não se esqueça 
Que prometemos mudar 
O nosso mundo
E fazer dele nosso
E não sonhar com o que pregam
Pois os erros seriam nossos
E a culpa seria do amor.


Marina Cangussu F. Salomão

Peri Psyqué

Como esqueceria estes olhos 
Que acompanham-me a noite,
Medrosos, temerosos e sedentos
E suplicam-me conforto:
Liberte-se alma desenganada
Não permita controlar-se 
Por ilusões desdenhas,
Elas brincam com teu corpo
Como brincas com carrinhos,
Tuas vontades não precisam 
De manobras que não as tuas,
Sejas forte em teus caminhos
Pois dizem perdidos
Mas sabes o que deves querer.
Por isso liberte-se pobre alma
Não vistas mais estas tuas roupas
Nobres de castidade,
Não sejas puritana por comodidade
Enfrente teus passos em pernas seguras
E deixe meus sonhos leves em doçura
Pela madrugada calma e serena.


Marina Cangussu F. Salomão