segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ladeira

E os confusos tropeçam 
Em seu equilíbrio malabar, 
Desfazendo-se no chão.
Soltos e livres.
Redondos em ladeira lisa.
Fugindo do ser, do corpo, 
Do vil e do vão.
E se tornam escorregadios 
Para deixá-los livres e só.


Marina Cangussu F. Salomão

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Sede das gentes

Sua alma se soltava desta vez
Desprendida, libelulada
E afoita desregrava-se
Incapaz de raciocínio ou sensatez
Desejando apenas olhares
Para lhe suprir a sede
Que compunha sua paixão
Delirante pelas gentes
E libava cada gota de suor
Que lhes escorria
Como se fosse o único sustento
Para seu resto de corpo em putrefação
Encharcava-se e queria saber
Tudo o que lhe compunha
Cada componente que a formou
E a fez derramar linda e suave
Molhada em desolação
Enfeitando o dia
E contornando o mais suave delineio
Das faces diversas e aparentes
Que se mostravam todos os dias
Lisonjeiras ou não
E que tinham o poder de perpetuar
Aquela paixão de quimera
Que a fizera rasgar as grades
Que se auto-impusera
Sem chave ou cordão
E voltara a viver onde
O encanto se perfazia
De doces e horrores
Desenhando a primavera
Que compunha-lhe a vida




Marina Cangussu F. Salomão

Bolha

Deveria furar mais uma vez
Sua bolha túrgida de proteção
Que insistiam em encher
E insistia em deixar.
Refugiava-se aos poucos
Coberta em disfarces,
Para dentro de si e dos seus
E alegando tédio e cansaço
Ganhava o direito de se perder
Longe do que lhe atormentava
Fechando-se para o que era real
E quanto mais argumentos tivesse
Para dizê-los necessário afastados
Mas sopravam e enchiam seu casulo
Que mesmo cheio não suportava
O crescer de seu ego argumentativo
E estourava: jogando-lhe fora, longe e no chão
Sem ver destino, mas apenas o que perdeu
E perdia o que era real
E doía por se perder
Até encontrar novo refúgio
E se admitir diferente e capaz
Autossuficiente: em sua nova bolha.

Marina Cangussu F. Salomão

A vista

A borboleta perdia suas asas
Pedaço por pedaço
Depois de seu primeiro voo
Pois voar não era tão grande
Quanto deixar de ser larva
Afinal, que destino teria
O voar exibindo-se
Admirariam-na
E cansariam de sua beleza
Vã e solta.
Quando larva
Ainda havia a esperança
De elevar-se mais
E o sonho de poder ver do alto
Fazia-a agradecida
Por tentar.


Marina Cangussu F. Salomão

Contos


Depois da curva - Pouca Vogal


E sairia correndo feito louca
Com os cabelos voantes e embaraçados
Gritando aterrorizada todas as pragas
Enraivecida do que vira e se tornara.
Mas não rasgaria as próprias roupas
E cuidaria para não se machucar
Pois não fugiria para aquele lugar
Ou qualquer outro corriqueiro
Iria para um que não a sabia
E chegaria apenas com os cabelos
De quem tomou muito vento
E o mesmo muito pisado
Assolado deveras muitas terras
Não como resquício de quem foge
Ou mesmo lembranças de loucura.
Fingiria, continuaria o mesmo
Desenvolveria sua hipocrisia.
E seria perturbada para sempre.


Marina Cangussu Fagundes Salomão

Minha alma

Minha alma:
Leitora de tantas outras,
É frágil:
Amedronta-se ao cheiro
E à presença de outras
Teme suas vivificações.
Ao mesmo tempo
Que não flui ou revigora-se
Sozinha em seus temores
Precisa das outras almas
Para lhe contribuir com mais sopro.
Ela só consegue deslumbrar-se
Quando há distância.
Não sabe ser centrada:
Ela não é racional,
Ela é impulsiva.
Não confia e não se entrega
Ao mesmo tempo louca
Se revela em palavras
Soltas em um cuspe
Que enoja seus outros rostos.
Ela sabe desculpar-se
E martela seus defeitos
E conduz perfeitamente um julgamento
Justifica-se e compreende
Mas fere frialmente com conclusões.
Ela ascende e rebaixa
A si e a suas nutridoras
Devasta-as com tanto sopro
Sugado para recompor-se.
Ela treme e envergonha-se
E ao mesmo tempo se levanta
Com altivez consumada
Como se nada lhe afligisse
Incomodasse e atingisse.
Ela é frágil e chora escondida
E se despedaça a cada derrota
Se perde. Mas se refaz.


Marina Cangussu Fagundes Salomão

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Conclusio

Talvez ela só não soubesse
Que as confusões se fariam
Sem pedidos e sem entranhas
Sem entrar suficientemente
Permissivo e contente
E que o que lhe doía
Ou o que lhe coçava
Não existia para os outros
Mas era real como sua visão
Como a diferença 
Entre o que todos viam
Porque cada um via diferente
E talvez fosse tempo
De fazer diferente
Sem permissão e compreensão
Fazer sem doer, sem pecado
Sem importar com as confusões 
Que lhe construiriam depois
Pois o depois ainda viria
E ela tinha certeza
Que nunca perderia
O que lhe segurava e protegia
Porque seu rosto impunha
Muita doçura para desfazê-lo
E para perdê-lo
E mesmo porque não faria mal
Despencar de uma bolha de sabão.


Marina Cangussu F. Salomão