quarta-feira, 4 de junho de 2014

Fim do início do fim

Fiz da vida o concreto
Que não era o dos muros ou paredões
Mas que se endureceu
Se protegeu
Das alucinações

Marina Cangussu F. Salomão

Tardes de meios

O tempo parou estranhamente
Como a minha alma
Neste meio de tarde
De chuva mansa que não molha
Em painel amarelo ocre intenso
Sem intensidade
Meio perplexo
Sorrateiramente sem reação
Como se o dia houvesse suspendido seu tempo
E a si mesmo
Sem dádiva ou reclusão
Apenas monotonado 
Apenas encarcerado
Na paralisação.

Marina Cangussu F. Salomão

Grito de tantas almas a-ladas

Fim dos pedaços salpicados de meu contorno
Em enegrecidas cores de meu recorte
Jogados ao ar em cheiros e cores de morte

Mas ainda grito ensurdecedoramente
As dores de meu entorno
Pois nada está pelo socorro dos genes de estorvo
Sedentos de amor

Marina Cangussu F. Salomão

Criatura

Nunca fui capaz de distinguir minhas cores
Entre tantos extremos e estremecimentos
Entre tantos esquecimentos

Sendo o oposto do invertido ao contrário
Nunca fui capaz de completar as listas que me caberiam os nomes
Nunca fui capaz de me ser inteira entre desabrochares e solidões

Sendo a bastarda de mim mesma
A atrasada entre os ponteiros

Marina Cangussu F. Salomão

terça-feira, 3 de junho de 2014

Delicadeza

Vejo tantas almas
Pelas ruas
Perambulando
Apressadas ou não
Vejo-as:
Coloridas
Desvestidas
Sapecas
Tristonhas

Que me questiono
Se em algum momento
Elas viram a minha.
Vejo tantas almas
Tanta calma
No que vai no vão
Retratadas em caras
De pouca solidão
 
Que me questiono
O que elas viram na minha.
 
 
Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 2 de junho de 2014

EpilÉtica

Sou ética por repressão
Porque no fundo, sempre fui uma garotinha com dor de alma
Sem muita calma e pressa de atenção.
Nos recheados, implorei que não fizessem por mim
Porque eu queria todo o poder de início ou fim
Todo o suor sendo meu, unicamente:
Com vitória padecida
E de aplausos carente
Alguns poucos reconhecimentos.
E a ética, por bem viver somente,
Em hipocrisia
Porque nunca foi necessário resposta do amor que seria
No futuro do pretérito imperfeito.

Marina Cangussu F. Salomão

Carta

Sei que os tempos estão amenos, meu amor
E que as cartas levam meses para chegar
Ônibus se vão e voltam sem respostas
E o cochichar dos ventos dizem sequer suspiro
Sei que a vida se mantem em lembranças
E que o amor não passa de imagens refletidas
Que o mover das palavras é capaz de transformar os rumos
Mas que nem palavras são escutadas pelos ouvidos sedentos
Sei. Sei que a vida se foi com seus planos infinitos
E que eram planos lindos que doem a cada memorar
Sei também que se perderam todos os toques
Todos os tatos, os lábios, sorrisos e olhares
E as respirações deixaram o amoroso para uma ansiedade medrosa
Sim, amor, muitas coisas mudaram nessas rotas sem destino
Tantas linhas retas agora curvas
Perdidas, com esperanças de encontros
Eu sei, meu amor, que não era esse o plano
Eu sei.

Marina Cangussu F. Salomão