domingo, 17 de agosto de 2014

Domingo à noite

Para Adson EGS

Há quem diga que os remos são como peixes afobados, 

desesperados pela pressa do sem sentido. 
Sem rugido e sem entrega. 
Afinal, para que o remo se as portas virão cada uma à sua vez. 
Cada uma uma vez. 
Se não para para boiar, 
todas as molduras passarão. 
Sem direito a voltas. 
Sem direito a vistas. 
Porque a correnteza já se foi. 
E o cardume também mudou. 
Se não contempla, 
nada terá o gosto do eterno. 
Do etéreo eternizado: 
essa mágica sagrada do instante. 
Essa marcha sagrada do passante.

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A minha alma apodreceu muito antes de nascer
E eu perdi tudo... Antes mesmo de ter.


Marina Cangussu F. Salomão

Naufrágio

Está tudo molhado
Tudo inundado
Tudo perdido
Achado pela água 

Está tudo encharcado
Tudo alagado
Tudo moldado
Refeito na eira desmoronada

Está tudo sumido
Tudo esquecido
Bem sem sentido
Nos extremos de meu condomínio

Marina Cangussu F. Salomão

Pedaço de ritmo incontido

Que passa coração
Tu neste teu órgão ritmado
Não sabes da complacência da vida
Pois nada faz-te sangrar em ferida

Que passa coração
Se pouco sabes da resistência de teus canos
Apenas espera o rugido nos teus planos
Enquanto esbanja-te em tua sofreguidão

Que passa coração
Acreditas na absolvição de teus condenados
Como se os anos passassem alterados 
E tudo ficasse em vão

Que passa coração
Quando até em ti te mudam o gingado
E mais rápido faz-te teu ido sem voltado

Que passa pedaço de músculo especializado
Que faz-te desordenado?

Marina Cangussu F. Salomão

Sobrado

Suavizado
Sintonizado
Situado.

      Sobrado
      Soldado

Marina Cangussu F. Salomão

Do ver ouvir e falar

Eu tive que gritar várias vezes em meu ouvido
Eu tive que gritar
E eu gritei
Eu me esgoelei
Mas eu nunca ouvi
Eu nunca vi as ondas de meu som me atingirem
Então silenciei o suado e suavizei-me à janela.
Eu tive que ver passar: 
Os passageiros, os passantes e os passados
Eu tive que me debruçar
Eu tive que ver os futuros passados passantes
Passantes escancarados passados
E os passageiros de meu próprio voo passando
Eu tive que ver passar
Porque o meu grito reto nunca atingiu meu ouvido oblíquo.
E eu nunca disse a mim mesma.

Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 10 de agosto de 2014

A velha estrada de tijolos amarelos

Para Tico Salomão, pois foi quem me ensinou a estrada que deveria seguir. E hoje, ainda nela e distante, desejo com todo o carinho uma parada rápida no final, para ao menos abraçá-lo e dizer que o amo, mais do que o mais impossível. (Eu te amo, Pai)



E fui andando pela estrada de tijolos amarelos
Que desde muito me disseram na infância
Segui sem saber onde pisava, se parava ou ia
Mas rememorava sempre aquela fala
Que dizia que ele seguiu
Então repeti

E andei pela estrada de tijolos amarelos
Era ela apenas o sonoro de meu coração pulsante
Era o sonho, o dream murmurante
Me dizendo sempre para buscar o que era meu
E a voz me era tão familiar
Que segui

E cheguei ao final da estrada de tijolos amarelos
E era tudo o que sempre pedi
Porque mesmo na coragem de ir-me pelo meu eu
Soube ao final e desde o começo
Que caminhos guiados por sonhos nos levam para casa
Para o axis rodeado pelo amor mais seu

Marina Cangussu F. Salomão