domingo, 16 de novembro de 2014

Flores, Cores, Dores, Rancores

Vejo pessoas morrendo
Todos os dias
Uma por uma
Em minha mesa.
Vejo-as.
Não por ser médica ou juíza
Ou por enviesar-me em seita
Ou qualquer treita que aceite a morte.
Vejo-as apenas porque abro os meus olhos em suas flores
E vejo-lhes as feridas carcomidas 
E putrefeitas 
Com bichos e parasitas a devorar-lhes.
Mas não culpo os pequenos seres em seu banquete
Nem culpa seria boa palavra.
Mas o sujeito do verbo morte 
É o próprio ser feito de dores
Por cores que não escolheu
E que morre sem sua arte.

Marina Cangussu F. Salomão

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Baixa neblina

A vida cumprida
Muito mais que lida
É arte
É calma e sucinta

Simples como o passar de árvores pela janela do carro em movimento
Árvores secas de outono envelhecidas

Como um sono tranquilo de pensamentos leves
De neblina baixa

Como sons bons e distantes

Chaves por baixo de portas
De portas abertas.

Marina Cangussu F. Salomão

Lithuania 07/11/2014

Apesar de pesar o pesar

Já me vou, meu amor
Assim leve, triste, pacata
Vou-me distanciando
Desamarrotando
Expandindo-me dentre todos os meus ares.
Sei que me acusas de pouco amor
Que te abandono e te causo dor.
Mas me vou,
Porque não queres que eu fique
E não quero permanências
Insistências me agridem 
E me pesam
E eu não gosto de pesares.

Marina Cangussu F. Salomão

Riga

Árvores, fontes, pessoas, folhas
Todas secas e cores tristes
Enraizadas neste vento ressecado
E frio
Mas tão lindo quanto a tristeza destes olhos crios
Cinza, cadente, prepotente
E tão preponderante
Rasante, rasgante
Tão dentro de si mesmo e em seu caminho
Lindo, romântico e sozinho.
Riga: simples, monótona
Não cede. Não pede
Vive em seu confim abarrotado
Amassado pelo vento que enruga o pelo
Cedo
Mas sem medo
Do rodeado.

Marina Cangussu F. Salomão

Vestimentas

O coração começou a doer
Novamente
Mas desta vez uma dor muda
Cheia de curativos
Remendada
Rodeada de perdões
Compreensões e escutas
Ela dói
Quieta
Indistinta
Quase insentível
E diz-me que pouco muda todos os meus passos
O passado continuará intacto
E instável em meu controle
E vontade de "passarão"
Continuará atormentando-me por vezes
Relembrando-me das lacunas encobertas
E das perguntas indiscretas:
"Se sêsse" quem eu seria
Talvez não o mesmo coração 
Bobo e medroso
De suas estruturas poucas
Mas também não sensível
Às bases alheias
Que se escondem em roupas.

Marina Cangussu F. Salomão

Nessas folhas de outono

E mais uma vez me apaixono
Não por pessoas,
Destas os critérios invadiram-me
E fizeram-nas poucas,
Mas pelas coisas
Suas cores, sons, murmúrios
Seus ventos, silêncios, espaços.
Eu me apaixono pela alma das coisas
Que se enlaçam na minha e me namoram
As coisas que permitem ser ligadas e entrelaçadas
As coisas mudas que me deixam dividir
Estas que agem em teus sensores
Sem avisos.
Eu me apaixono pelas sensações
As falas, os cantos, as folhas
O vento nessas folhas de outono
Que mortas são imortais por abandono
Eu me apaixono pelas coisas esquecidas 
E percebidas pelo abono.


Marina Cangussu F. Salomão

Riga - Latvia 02/11/2014

Ao meu lado

Eu sinto as almas ao meu lado
Sinto seus gritos e rancores
Eu sinto suas dores e falares
Sinto quando tocam flautas
Quando trocam olhares
E quando tocam pessoas

Eu sinto as almas ao meu lado
Seus anseios e necessidades
Sinto quando me pedem sem maldade
Pelo afeto, pelo ódio, pelas cores
Por toda demanda de suas faces
E seus amores

Eu sinto as almas aladas
E quebradas
Ao meu lado

Marina Cangussu F. Salomão