segunda-feira, 11 de maio de 2015

Primeira vez

Pela primeira vez não preciso limitar os meus planos, cortar os meus sonhos, ouvir o quanto sou egoísta por querer-me mais.
É a primeira vez, porque antes de crescer em mim um sujeito solo, eu já estava colocando-me em papel de dois. 
Antes mesmo de saber de mim, eu já me pus em tê-lo.
Mas neste único momento: não: vou onde quero sem ter que desmarcar o jantar ou o encontro de família. Mudo minhas profissões sem pensar se terei dinheiro suficiente para as contas da casa ou para bancar aquele carro que ele tanto queria que dividir.
Vou solta e tranquila. Cuidando de mim e de meu presente.
Porém não vou só.
Sei que posso ter afeto às sextas-feiras a noite ou em qualquer outro dia da semana. Porque tenho com quem dividir o presente. Mas sem pressa de futuro. Sem linhas limitadoras de uma sequência indefinida.
E me sinto bem. Me sinto livre.
Sinto meu amor leve e fluido.
Estava cansada de dividir-me antes da hora.

Marina Cangussu F. Salomão

Masters

All my masters died from their own hands
Dumped in their own shit
Lost in their mistakes

But I love them
Like I love the first of them
The main love
The main life that inspired me

Full of drugs
Full of sadness
Full of disaster
Full of dread dreams

But my only one.

Marina Cangussu F. Salomão

Sentidos em si

Queria eu fazer poemas de instantes:
Desenhar nas palavras esses ínfimos detalhes minuciosos
Que antes eram da natureza
Mas agora estão completamente roubados pelos meus sentidos.
Ou talvez roubados sejam os meus sentidos
Porque mais parece que me perco do mundo ao observar:
Pois é tão ínfimo e delicado
E por vezes patético aos sem sensibilidade exacerbada
Isso de ver a água em uma poça mexer ao tilintar do vento.
A água dança com suas ondas
Leve ou feroz.
Ela não tem suas próprias notas ou passos
Mas deixa ir-se ao toque do vento
Ao seu som
Som que chega apenas aos meus ouvidos
Pois a água não escuta
Ela sente
E se deixa ir.
Quem dera fôssemos nós assim tão sensíveis
A ponto de deixar-nos ir pelo que nos toca
Sem precisão de palavras ou explicações
Apenas sentidos
Sentidos dentro de si.


Marina Cangussu F. Salomão


Rhossili, Wales - 06/05/2015

Ciclos

Rhossili - Wales


E fez-se silêncio na água cristalina
E pude ver-me tão bem quanto ela
Assim clara e funda
Até as areias erodindo das rochas
Desgastadas
Do sustento

Era isso que procurava
Disse à mim mesma afinal
Até em sonhos já dizia-me o inconsciente
Repetidas vezes

Foram necessárias enxurradas
Algumas altas marés
Outras tantas ondas
Ate que chegasse ali
Sutil e leve
Sem dor, sem peso, sem turvamento
Para olhar profundamente
E conhecer como sou conhecido


Marina Cangussu F. Salomão

Fuga de ideias invisíveis - Rocha

Sou essa que se deita na rocha
Sem pressa de voltar.

Voltar para quê? se é a partida que importa

Então parto-me em migalhas e jogo-as ao vento
À espera de brotar em algum lugar

Eu sou essa que se deita
Esperando o terreno fertilizar.

Marina Cangussu F. Salomão

Sonetos e passos

Sempre encontrarei aquela música a surrupiar-me de meu eu
A enfeitiçar-me a ponto de perder-me em meus tons e sons
Feito um breu
Onde apenas minha luz girando em si 
Feliz por se levitar tão fluida
Apenas ela é vista
Sim
Eu sou essa alma perdida e descontrolada
Até tocar-me as notas 
Que sintonizam-se com o ritmo de meu ser mais interno
Meu ser essência e sem regras
Sem violações
Eu sou dançante junto ao espelho
Eu sou alma livre e solta
Sou luz que transborda amor 
Ao perder-se nos passos de tilintares sonoros
Sou bailarina
De sonetos e passos
E meu corpo e minha alma fazem poesia
E quando se encontram nos mesmos timbres
Se fazem extra mundo
E se sucumbem em númen.

Marina Cangussu F. Salomão

Fuga de Ideias Invisíveis - Parto Normal

Mude
Não pra nude
Mas te coloque tons
Te coloque cores
Te coloque amores
E depois parta
E farta
E Marta.


Marina Cangussu F. Salomão