segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Acho que isso foi o fim

Às vezes não te reconheço naquelas figuras que ficaram estampadas em minha memória
E mais parece que você era só uma ânsia pronta a desatar
Que desatou e passou
Levou-me tempos para desfazer da náusea de te ter
Mas acabou a vontade de vomitar a vida e trazer o de dentro para fora
E você ficou em memória:
Alguns relances perdidos de lembranças que por vezes veem com amor.
Hoje mesmo você veio de súbito em meu sonho, para que eu te dissesse algumas palavras de adeus
E foi tão sincero aquele meu segredo compartilhado ao pé de teu ouvido, que acordei duvidando se havia passado a noite
E o que te sussurrei não foram  declarações de amor ou promessas de retorno. 
Eu apenas disse como segredo de nós dois que já sabíamos que chegaríamos nisso.
Nós sempre soubemos, desde o princípio. 
Que tudo terminaria em um abraço carinhoso e repleto de amor. 
Depois cada um teria seu lado e seu fim.

A gente sempre soube.
Mas foi isso o que a gente escolheu.

Marina Cangussu F. Salomão

Conselhos

Você quer ocupar lugares
E isso é um problema, menina

Quando se enchem os vãos das portas
Já não é mais possível fugir

Então não abarrote-se
Nem te coloque raízes em cantos vazios

Deixe espaço para o surgir de contos
Poemas e alguns feitios

Porque a vida mesmo foi feita de ócio
Sem o desespero de nós sem alegria

E fugir, acredite, nunca foi pecado
Pecado é não sair do lugar:

De sua sala fechada
De sua alma lacrada

E prender-se numa alma-gamada de terrores.

Marina Cangussu F. Salomão

Dos ditados de sua mãe

Aprendi com minha mãe 
Esse jeito desordenado de amar
Assim sem pedir e sem dar
Sem regras que alguns colocam
Ou sentenças que outros proferem
Sem deixar de ser só porque é amor

Marina Cangussu F. Salomão

Sobre o sonho de neve pela janela me fazendo sorrir

Eu sabia 
Quando acordei no meio da neve, 
Que ela caía apenas 
Porque meus sentimentos haviam congelado 
Dentro de mim. 
E de tão frio, 
Se precipitaram pesados 
E me invadiram o quarto 
(e a vida).

Mas, que mal tem? 
_ perguntei aos que me julgaram. 
Se meus sentimentos ao final 
Não ficaram suspensos em um céu cinza 
De atmosfera pesada. 
Pelo contrário, 
Eles precipitaram sem a pressa 
De virem antes do tempo. 
E permitiram em flocos de neve 
Uma queda mais branda.

Que mal tem descer em neve clara, 
Leve e suave, 
Ainda que fria. 
E se derreter junto ao sal ou ao sol?

E já era fim de inverno de qualquer maneira. 
Então, porque não deixar-se precipitar sem pressa, 
Branca e suave 
E permitir-se derreter ao chão 
E tornar-se fluido nos primeiros brilhos que te sorrirem...

Bem, foi isso o que fiz.

Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Poema para não ser lido, nem entendido

Posso me matar com uma faca
Ou posso morrer de tristeza, sozinha, carcomida
Sufocada de agonias
Engasgada com minhas palavras sem pronúncia

Todos se matam.
Isso é justo.

Mas não invente de se jogar solta
Nem decida ser bem você
Não deixe tão na cara o que pensa
Nem ame seu bem querer

Não se mate.
Isso não é justo.

(Com quem?)

Marina Cangussu F. Salomão

Poemas falsos

Voltei a escrever poemas falsos
Versos com dizeres que dizem o que não querem falar
Essa poesia assim artística de quando se deve calar

Eram os tempos da ditadura
Como nos tempos do AIs 5, 6, 7, 100
Acho que isso nunca vai passar

Voltei a escrever poemas falsos
Versos engolidos em seus próprios vômitos
Uma poesia pouco arredia, só para me encaixar

Foram-se os tempos de liberdade
De se olhar no espelho e não sentir vergonha de si
Acho que isso nunca vai passar

É triste isso:
Nem os poetas podem ser livres
Enquanto poesia


Marina Cangussu F. Salomão

Dos amores

Eram tijolos marrons os que nos rodeavam.
Tijolos marrons era o que sempre se via formando paredes e muros naquele lugar. E se elevado o olhar: as chaminés e o céu cinza e frio.
Era lindo, romântico e simples.
Havia uma escada na porta dos fundos onde nos sentamos.
Era frio. No abraçamos. E nas mãos aquela fumaça que nos aquecia (e que entre nós se dividia)evaporando de um café bem quente.
Ele também parecia sonho: como todo o cenário. Calça jeans e descalço, blusa branca que dizia quem ele era.
Ele era típico, lindo e comum.
Tão loiro e tão claro que se destacava do escuro do marrom que o fundo compunha.
Estava ali, ensinando-me a amar. Sem posse, sem loucura. Centrado.
Deixava que os vizinhos me vissem pelo meio muro, sem briga. Deixava que eu fosse minha.
Era simples aquela cena. De pensamento suavizado.
Foi neste momento que me apaixonei.
Tão doce e tão suave a descrição, que nem parecia que aquele era o amor mais louco e intenso de meus dias. O amor que escolhi para ser errada.
O amor que me conectava com deuses sem bíblias ou outro livro qualquer. Ele me conectava com o deus do universo, mesmo sendo descrente e pagão. Ele me retirava do mundo, me matava. Depois soprava ar para meus pulmões. Me fazia ser viva. Me ressuscitava de mim mesma.
Ele era louco, niilista, prático, calado. Ele era lindo, intenso, consumista, amado.

Marina Cangussu F. Salomão