segunda-feira, 31 de julho de 2017

Caminhada

Às vezes a vida parece uma caminhada ao meio-dia
Na rua principal dessas cidades pequenas que estão no interior,
Meio perdidas da memória e do louvor.

Uma árvore aqui e outra acolá
O sol alto queimando a pele.

E vai-se indo passo por passo nessa rua
Que a princípio parece tão longa e tão pouco larga.
Enquanto ela mostra quão viva pode ser na pacatisse:

Para o passante quando vem a sombra de uma árvore pequenina,
Se afolga o passo, lentifica a vista.
Mas quando só sol sobre o espinhaço,
Se apressa, acelera e incendeia as canelas.

Mas sempre: seja menino na bicicleta, seja senhora seguindo a missa
Sempre se chega no final.

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Plenitude no amor

Hoje pela manhã vivi um momento de plenitude no amor
E acreditei ser importante descrevê-lo:


Era por volta das sete,
Aquele momento em que o dia amanhece
E os pássaros acordam,
Tão excitados e felizes,
Que o meu despertar é certo.
Meu e de meu amor.

E na frescura  da manhã, a rede nos chamou a balançar levemente
No ritmo das vibrações da vida.

Então no céu ainda branco do orvalho denso da noite
Havia um frio ameno, que so esfriava para permitir abraços
E enquando se desfazia a névoa,
Se coloria o olhar de araras verdes, em sua maioria.
Tão verdes quanto a copa das árvores que rodeavam o quintal da varanda    
E já não se sabia se verde de folha ou verde de pássaros​,
Porque até o movimentar era constante.
Só o som, que preferiu entrar pelos ouvidos e não pelos olhos,
Dava conta de somar as existências.

Era um encanto no céu
Melhor que qualquer paraíso.
Já aqui na terra os pequenos mosquitos que atentam os cachorros
Resolveram rodear nossa rede.
E mesmo eles eram bem vindos,
Magicamente exatos no balançar da cama.
Capaz que são atraídos pelo amor:
Amor do cão: incomparável incondicional inesgotável
E o amor da rede: dos dois pés nus 
Se acariciando lentamente como algo corriqueiro.

Ah natureza bendita. O que mais quero?

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 13 de março de 2017

O amor. O rio. O amor

O amor que sinto por ele é tão gostoso
E tão completo, que ousaria dizer que
São como as águas de um rio longo e largo
Que desce tranquilo seguindo seu curso
Sem pressa, sem raiva, sem medo.

E por onde passa envolve com carinho e afeição
Deixando a margem calma e também o ar umido.

Acalma a vista,
Esfria o sol,
Molha o ar.

Não há empecilho que o transtorne. 
Tão forte que leva em seu caudaloso rumo as pedras, os galhos, as folhas,
As latas e garrafas jogadas por terceiros.
Lava.
Leva tudo...
Não por ter que aguentar
O rio sabe pouco de obrigações
Mas porque não é pouco o que o desequilibra e o desfaz.
Então não importa o que lhe cruza ou lhe penetra

Ele leva tudo consigo e lhe cabe muito.
Porque ele é como o amor:
Doce, suave, tranquilo e forte.
Destemeroso.

Marina Cangussu Fagundes Salomão 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Dicionário do Norte de Minas

Madrocê = amadurecer
Mi = milho
Isminuiu = diminuiu
Saudível = saudável
Abeira pra cima (não conseguimos traduzir ainda)
Otónti = anteontem
Arribar = levantar
Vexame = palpitação
Obrar ou disistir = defecar
Ataiar = encontrar, cercar
Dar lançadeira = vomitar
Córg = corrego, rio, riacho
Oitúb = outubro
Iscupir = cuspir
Sussar =  embalar, balançar, ninar
Lagrumação = lacrimejamento
Fregamar = inflamar

Sobre o fim do mundo

Ontem
Apareceu um arco-íris no céu
Dessa cidade sem cores

E poucos viram suas luzes
Porque tantos olhavam o chão
Ou olhavam os que passavam (por falar)

Lugar de raizes excessivas 
Diria.

Andaram nas ruas vazias
Sem olhar para cima
E sem sentir a pouca chuva.

Lugar de desejos sem horizontes
Pensei.

Ontem apareceu um arco-íris
Ou melhor, foram três no céu.
Mas ninguém viu.

Pois estavam ocupados
Pensando nas dores 
Que não querem saber.

Lugar de afetos incompletos
Concluí.

Tem pouco horizonte
E pouca amplitude
Os de corações carcomidos.

Pai Pedro - 21/02/2017

Marina Cangussu F. Salomão

Barcos da vida

Estávamos viajando, eu e ele. Em um barco. 
Vimos lugares lindos, descobrimos outros tantos. 
Aventuras, muitas aventuras.
Nós sempre juntos. Nós dois: e mais três pessoas, no princípio, que levamos em nosso barco até uma praia: a primeira já veio desde o começo e desceu rápido; a terceira entrou nesse momento, mas tambem desceu logo à frente; já o segundo veio desde o princípio conosco e se prolongou alguns meses sem saber quando descer, ate descobrir uma ilha agradavel onde ficar.
Depois que todos desceram tivemos nossos melhores momentos: ilhas, alto mar, praias maravilhosas. Sempre juntos. Só nós dois.
Porém, em algum momento que nao sei qual, nosso barco, que era simples, singelo, de madeira _ uma canoa na verdade_ começou a furar e entrar a agua do mar. 
Acho que esses furos foram o excesso de peso ao carregar tantas pessoas conosco. Pois ainda tiveram dentre eles o que esqueceu alguns objetos que julgo terem perfurado a madeira, quando estávamos deslumbrados com tudo o que víamos no caminho a dois.
Nos primeiros buracos eu sozinha consegui tampar. Enquanto ele, como de costume, ficou no remo, decidindo o rumo a tomar.
Entretanto foram surgindo cada vez mais buracos e sozinha eu ja não conseguia mais. Pedi que ele me ajudasse: deixe o remo um pouco, me ajude a manter o barco. Porém ele disse que nao podia, como podemos nos deixar à mercê da maré, simplesmente _ ele disse.
E surgiram mais buracos e a agua enchia o barco que ja nem andava mais, de tanta agua. Pedi para ele me ajudar. Porém ele, em uma atitude que penso ser desespero ou medo contidos, me afastou de todos os buracos que eu ainda conseguia tampar e disse para que eu deixasse o barco afundar e nós dois fôssemos juntos.
Eu, desesperada, nao queria a morte. Chorei. Insisti novamente que me ajudasse a salvar o barco. 
Ele se negou. 
Entao saltei no mar, me salvei. Enquanto o barco e ele se afundavam.
Então eu disse triste: vá barquinho, vá. Já que você consegue ir e eu não.

Marina Cangussu F. Salomão

Relatos

Cristiano chegou na escola no primeiro ano escolar: uma criança com os cabelos bem loiros e bem crespos. Como todas as outras, ele estava sedento por descobrir aquele mundo das letras que ainda não o pertencia.
Sentou-se no primeiro dia, no segundo, até o final do primeiro mes, mas haviam tabtas outras coisas em seu mundo para que compreendesse e a esvola nao o ensinava, que aquele mundo ali perdeu-lhe a graça. Depois de um mes, entao, raramente parava quieto: nem por suplica da professora.
Chamaram o pai: nao tinha. Chamaram a mae: só viajava. Veio a avó, com sua bolsa de colostomia mal cuidada, para a reunião com a professora, discutir o comportamento de Cristiano.
E a avó dizia: "esse menino é capeteado. A mãe dele, aquela bundona, vive levando droga por ai. Nao quer saber dos filhos, e eu ja nao aguento mais. Nao quero saber desse menino".
A escola em que Cristiano estudava beirava as tres principais favelas da cidade e acolhia todas as crianças carentes da regiao. As situacoes sociais ali eram precárias. Mas se fazia o que podia para alfabetiza-los. Quando possivel.
Cristiano nunca conseguiu ficar quieto na sala e prestar atencao. Nao conseguiu aprender a ler e apos dois anos de repetencia, ele sumiu da escola. Na epoca provavelmente com seus 9 ou 10 anos. Esperto o suficiente para levar coisas daqui para ali.
Aos 16, apareceu novamente por la com pressa de aprender a ler e a escrever, o minimo que fosse. O fez em 6 meses ou 1 ano, e na escola nao voltou mais.
Poucos anos depois se ouve entre os professores a noticia de que seu nome agora era Xisto e que ele estava preso por assassinato. A professora que o recebeu no primeiro dia de aula de sua vida ainda tinha um retrato com toda a turma e ele: o menino de olhos sedentos e cabelos claros, caracteristica que o destacava, pois naquelas fotos quase todos eram negros, exceto a professora.
Tempos depois passou no radio que ele havia fugido da cadeia em uma rebeliao dos presos e que agora ele era o " Dono do Morro do Cemitério": andava de carrao, muitas mulheres e naquele cidade do interior nao ficava muito tempo mais. Vivia viajando, como sua mae.
Teve seu tempo de gloria. Completou 25 anos, como poucos de seu tipo completavam.
E aos 31 anos foi morto com 19 tiros, na garagem do predio em que morava na capital do estado. O morro ja havia sido tomado por outro grupo. E agora os bandidos da capital, amigos do Xisto, iam todos para la vinga-lo e tomar o morro de novo.
Na cidade, a professora so ouvia as noticias de medo: os bandidos da capital vao invadir nossa cidade. Ninguem mais ficara seguro nas ruas. E no velorio do Xisto, nem os amigos da capital.

Marina Cangussu F. Salomão