segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Tempo de neblina

Eu sinto a falta dele
Eu sinto a perda dele
Eu sinto ele ir esvaindo-se 
De minhas memórias e pensamentos

Sua pele já não se torna tão fresca
E seu cheiro já não me é tão nítido
Ele se dissolve numa nuvem disfarçando sua imagem tão linda
Eu já não escuto mais sua voz
Eu não sinto mais seu abraço
Foram todos perdidos no espaço da lembrança
Embaralhados pela distância e o tempo.

A imagem dele começa a anuviar-se em minha mente
E suas lembranças dolorosas são guardadas de repente

Marina Cangussu F. Salomão

Poderes

Posso sentir os hormônios dentro de mim
Queimando-me de tristeza ou vontade
Posso sentir as dores de meus transtornos
Biológicos ou biloculares
Posso senti-los a catabolizar-se
Posso sentir o fulgor dos mesmos a encastelar-se
Posso ter-me por inteira
Apenas na companhia de Chopin e de meus passos
Que se entregam em braços rodopiantes
Reviravolteando-se em laços
Posso ser-me aonde quer que queira
Posso por-me à beira
Do penhasco ou do sorriso
Porque sou sensível
Perdida dentre minha intuição e instinto
Sou sentível
Em tudo o que me rodeia, me enche, me dá vazão
Meu Infinito.


Marina Cangussu F. Salomão

Frescor

Saudade dessa chuva de verão
Com meu corpo deitado sobre a rede
Estendida na varanda
Sentindo respingos aventurar-se até mim

Saudade desse calor fresco
Como véu cinza à minha frente
Escondendo o colorido da estação

Saudade do homem de pé
Acompanhado de seu cão
A observar

Saudade de aprender com ele que a chuva é linda
E deixá-la entrar pelas janelas
Todas abertas, repletas de frescor

Saudade de rodopiar a saia na sala
Junto ao vento frio que a penetra

Saudade de sentir a casa nova
Como menina.

Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Sinceridade

Quando você segue a intuição
Quando você cala o medo
Quando você se ama apenas
Quando você perde o controle
Quando seus ouvidos apenas ouvem sua voz
Quando você faz silêncio e o mundo te acompanha
Quando você faz a escolha certa.

Marina Cangussu F. Salomão

Tonico e Carniça

O Tonico apareceu naquela manha quente em terra desconhecida, em meio a pombos, pragas e gente adormecida.

Já era quase meio do dia e restavam-me diversas ruelas a percorrer em meu ultimo dia por Istambul. Cidade fantástica de cores quentes, mas não vivas, pois secavam-se ao sol. Que apesar de escaldante, maravilhava a vista ao entardecer. Ultimo dia e uma expectativa imensa de perder: me perder pelas esquinas de construções emboladas e superpostas por suas variadas épocas na historia, estreitando ruas com gentes, gatos, carros e barganhas. Que se embaraçavam harmonicamente em seus cantos e cheiros de narguilé e cigarro. E também perder aquela vista sem expectativa de retorno. Pois não me cabe esperança para quando todos os átomos do mundo se reunirão novamente naquele mesmo formato.

Estava ali, próxima aos 25. Desolada. Perdendo a minha ultima menina, perdendo as minhas horas, perdendo.me em ruas e perdendo mais um continente. Perdida. Sem rumo. Sem casa. Poucas malas. Quando no meio fio, junto a tantos homens carrancudos vestidos de preto a combinar com as grandes barbas, me perdem uma escova destas de engraxate. De algo que não vi se foi ao chão. Sem nada percebê-la ali perdida e só.

Abaixo e observo.a. Possuía cerdas desgastadas, amareladas, ressacadas. Estava a tempos para se trocas. A madeira que lhe era base estava repleta de arranhões, riscos, usos. Era velha e suja de graxa, mas não parecia ter sido descartada no meio do caminho. Ela ainda pertencia a alguém que não lhe notava o sumiço.

Olhei em volta e rodeei o entorno com um olhar tao rápido que não fosse pela cor destoante nunca me daria com aquela cor pálida em meio ao preto dos casacos de inverno turco. Pálido como a escova. Seu dono, companheiro e talvez amigo. Um engraxate manco, de roupas puídas, amareladas, sujas, desgastadas. Chamei "Sir". Vários homens me olharam e retornaram aos seus passos em seguida. Menos ele. "Sir". Nada. Levantei. Corri. "Excuse me, sir. This is yours". Ele me olhou. 

Eu estava vestido o meu casaco preto, de coro, que cobria me como um vestido, reluzente naquele clima. Meu cabelo recém lavado descendo em cachos bem formados e hidratados. Minha pele branca, meus olhos claros destacados pelo rímel, minha boca vermelha. Eu estava linda. Eu sabia.

Ele me olhou. Olhou para a escova que eu o entregava. A pegou, levou-a junto à mão ao peito e agradeceu em uma língua que não entendia. Mas nem sempre é preciso palavras para dizer.

E fui.

Ele veio mais rápido ao meu encontro e ofereceu.me engraxar meus sapatos: já bejes pelo marrom desgastado, ha muito usado e de muitas estradas andadas.

Ele se abaixou humildemente, preparou sua caixa e ferramentas e renovou-me os pés. Fez de minhas botas novas, agradecido por lhe devolver o que tinha.

Marina Cangussu F. Salomão

Rota

De novo em um trem. Mas este foi meio do avesso,perdido e encontrado como única opção para irmos de onde estávamos para onde precisávamos.

Agora, as janelas encantam-me com um sol já posto antes de escurecer: ao longe montanhas azuis recobertas de neve, e em seu caminho casas: o rastro da minha espécie. Antes, no trem antecedente a esta conexão, ia a costa siciliana horas antes do sol ir-se: casas com o mar quase a invadi-las, pedras reluzindo uma mistura de basalto, água e sol e o oceano divino sorrindo-nos com ondas, ora mansas ora rápidas, escoando-se pelas pedras após seu festejo em véu ao encontrá-las.

Diante todo esse espetáculo apenas vejo-me agradecida por contemplar todo esse cenário:

Como é bom poder ir-se sem pressa ou desespero. E acreditar que, seja por qualquer que for o caminho, se chegará, em qualquer que seja o destino. É como se os remos não fossem mais úteis. E o vento, a correnteza e a maré cumprissem a função de levar-te aonde teus imensos esforços surpreenderiam-te. Onde planos são importantes para metas mas não para caminhos. 

E o melhor é saber que teus próprios esforços te trouxeram a essa canoa sem remo e sem rumo. E que esta foi a função deles, pois agora você já não se importa em controlar todas as rotas: abandonou o trabalho no farol para aventurar-se em qualquer das tantas rotas perdidas que antes angustiava-te por não tê-las seguras em seu controle.

E neste momento, a fala do Marmieládov em "Crime e Castigo" já soa em outro tom ao dizer da volta para casa: Compreende, meu senhor, o senhor compreende o que quer dizer isso de não ter para onde ir? Porque todo homem precisa de ter algum lugar aonde ir! Sim. Todo homem precisa de ter para onde voltar e agora já não te faltam lugares, passagens e pessoas aos quais um retorno seria salutar. E diversos cantos podem ser chamados casa e de qualquer forma os amores estarão sempre esperando.

Marina Cangussu F. Salomão

Intensity

I like my intensity
And the colours of challenges
I like the harmony of the tightrope
And I like the mistake of healing by microbe

I float on my extremes
Of power, love and misery
I like the pure crash of my oppositional symphony
I like the freedom of my suicide feelings
And I like the reason standing in my ceiling

I love my body without soul
The bite of a wet kiss
And  the pain of breaking down, though

And I love to lay me down shattered in the floor
I like to break my open door
I love my drama
And my confusion
I love my world inside
And my compulsion


Marina Cangussu F. Salomão