segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Lições

Amar só e somente
Saber que é amor o que se sente
Sem desculpas, sem culpas
Sem exageros, sem ligeiros
Amar o objeto amado
Ter seu Outro
Tê-lo inteiro
Amá-lo sorrateiro
E deixar que o amor seja
E que esteja
Entre nós.


Marina Cangussu F. Salomão

Escolhas

Ele se faz desnecessário
Com frequência
E não preciso de sua presença
Nem de sua constância

Porque quando se vai
Não me deixa vazios
Nem me deixa distâncias.

E é assim que eu sinto a sua importância
Não porque sem ele não dá para viver
Ou porque sem ele posso enlouquecer.

Mas porque dele eu escolhi ouvir os sons de existência
Suas falas e opiniões
Suas ideias sem restrições
Seus cantos e seus profundos.

Tudo o que não necessito
Necessariamente
Mas gosto e escolho ter.
Ele é assim: uma escolha que posso ser.

Marina Cangussu F. Salomão

domingo, 31 de janeiro de 2016

Fuga de ideias invisíveis - Dos pedaços

Aprendi 
A levitar
A voar
A perder-me do chão

Aprendi
A desfazer-me
A esquecer-me
A deixar-me vazão

E a vida tornou-se mais leve
Sem tanta carga
Sem tanta mala
Sem tanto nó deixado para trás

Pois aprendi
A desatiná-lo
A desafiá-lo
E seguir desamarrada
Desapegada
E controlada
Por si só.


Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Pupilas, íris, cílios

Com muita frequência eu me perco em teu olhar:
Sei que estou apenas olhando, observando
(Talvez absorvendo)
Mas mais parece que estou submersa em hipnose
E não tenho pressa de voltar.

E não sei quanto tempo emprego nessa ação
Nem sei de tempo e se ele passa
É como se tudo parasse
Ficasse suspenso
E todas as velocidades se reduzissem

E nada mais existe naquela fração de segundo eterna:
O mundo se escurece
Se embaraça. Se perde
E o único que me resta são pupilas, íris, brilhos e cílios.
Tua luz. Tua vida. Teu ar.

E me alimento desse teu gosto que me vem à boca quando tuas pequenas moléculas de aroma me excitam o límbico, me prendendo para sempre neste limbo, neste espaço minúsculo dentre o piscar.

Ah! Pois acredite: me sustenta. 
Sou capaz de sobreviver por dias ou semanas só com essa lembrança.

Marina Cangussu F. Salomão

Ode ao último retrato

Era apenas uma imagem antiga
Um porta-retrato entre papéis perdidos
Velho, um pouco carcomido.
Mas trazia lembranças
Achadas, talvez, 
Com o intuito de despedir-se afinal.
Nele desenhava-se um rosto bonito
E um tanto feliz,
No fundo uma parede do quarto
Que há um tempo me quis.
Parecia tão familiar
E ao mesmo tempo distante,
Que a minha imagem sorrindo ali ao lado
Já nem era mais minha
Foi: um dia, num instante.
Estranha a vida em imagens congeladas.
Antes alguém por quem mudar a rota, o rumo, os planos
Depois um nome que não se lembra mesmo voltando os anos.
Tristes os destinos
Ou felizes,
Não sei.
Ao menos, os mais importantes deixaram foto escondida
Pois ainda existem os destinos que não restaram sequer resquício de vida.
Mas, provável, que seja como foram,
Os que hoje têm rostos na memória
Mudaram o rosto que os acompanhava:
Meu rosto,
Meus sonhos, verdades ou propostas,
Sem o peso de mudanças impostas.
E isso é o que mais importa ao final.


Marina Cangussu F. Salomão

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Movimentos

Se não puder me dar tudo
Então não me dê nada.
Eu dizia insistentemente dentro de minha cabeça.
E treinava a fala
E desejava sua eloquência.
Mas ela tinha gosto de perdido em insistência.
É que como explicar que não peço futuro, a vida, os pertences,
Peço apenas reticentes
Possibilidades.
Quero somente sonhos e planos
Que sei que nunca irão se realizar
E que desde o princípio são insanos
Esperando apenas a razão se normalizar.
É que gosto da loucura
E de me sentir louca e solta
Eu gosto da soltura
E de me derreter pouca e revolta, seu outra (rima).
Com todas as escolhas em minhas mãos
Várias opções
Diferentes caminhos e combinações.
Gosto de sentir a liberdade de ir e vir
De entrar e sair
Aonde quer que eu queira.
A minha pele me diz isso repetidamente em frente ao espelho
Pois gosto inclusive de brincar de pentelho 
Na porta de entrada e saída de tua vida.

Marina Cangussu F. Salomão

Seres humanos

Ele tem medos como eu
E também alguns assombros
Posso ver em seus olhos negros
Quando se dilatam atentos
Ou no acelerar de batimentos

Ele tem pressa como eu
E também se acalma às vezes
Isso eu vejo no caminhar veloz
Ou quando não presta atenção em falas
E quando se deita vagaroso na sala

Ele tem perdas como eu
E também tem escolhas
Eu percebo quando me abre o coração
Ou quando não permite entrar
E principalmente quando me coloca em meu lugar

E ele se entrega
Mas não como eu:
O olhar, a taquicardia
a perda, a fala, o descontrole da perna
a vergonha, o sem jeito.
Os sintomas são todos iguais
Mas a história é diferente.

Marina Cangussu F. Salomão