quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Poesia Extensa

Olhei o mundo com meus olhos de fora
E vi que depois da chuva, no verão,
Faz um calor de céu azul e ar úmido
Gostoso de viver
De viver olhando os vários coloridos que o mundo tem.

E vi o som de tantos pássaros, cigarras, galos
Ouvi os sapos pularem para os becos,
Os gatos ronronarem seus carinhos.

Vi, na varanda, as roupas brancas brincarem de fantasmas com o vento.
Vi a voz da minha mãe falar de café na cozinha.
E ouvi o Mia Couto me dizer naquele livro:
Milagre é a vida não ter milagre.

Então entendi porque não consigo mais escrever poemas:
Porque a minha vida não é mais sopro sussurrado:
Ela tem estórias tanto quanto um cachorro livre:

A vida é poesia extensa.

Marina Cangussu F. Salomão

Meios e Entres

Sempre me disse das extremidades
E sim: eu sou assim.
Mas no mundo, eu não estou nos extremos
Eu estou nos Entres.

Não nos Meios, com as pessoas,
Nos grupos.

Estou nos entre grupos, entre pessoas.
Sendo sozinha no eu.

Os Entres são vazios.

As pessoas se infiltraram nos seus meios
E por ali ficaram.

Fácil ou não.

Já os que ficaram nos Entres
Ficaram sozinhos:
Porque nunca conseguiram se unir

Pois se o fizessem: seriam Meios
Não Entres.

Aí vamos sozinhos em nosso entres
Sabendo de nosso eu
Mas sem lugar no mundo

Somos originais, eu diria
(Afinal, nunca fui de tantas modéstias).

Mas não sem dor, 
Não sem erro,
Não sem arrepender

Como todos os outros.

Marina Cangussu F. Salomão

Agosto, Setembro, Outubro

Ouvi dizer que entre o céu e a terra há tempo para tudo
E antes de chegar na terra,
Na copa das árvores dessa cidade que habito,
Há tempo para tudo e todas as cores

Então, enquanto ando pensando no rodopiar das idas
Vejo-as materializarem-se em pétalas acima de mim:
São rosas, amarelas, vermelhas, alaranjadas e verdes

Tempos de ipê rosa, ipê amarelo, cerejeira, flamboyant, sibipiruna
Elas vão me dizendo em seu variegado de cores pacientes
O tempo de cada florescer

E apesar de carros, barulhos e pressas
Elas ficam calmas e serenas em seu tempo junto de sua história:
Se mais frio, se mais quente, se mais seco ou mais chuvoso
Se agosto ou se outubro.

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Chapéu de camurça

Havia um senhor hoje, meio largado, meio jogado e completamente bêbado, entrando no supermercado. Estava bem vestido, mas mal apessoado.

Entrou dançando o corpo, não sei se pela música interna ou pelo álcool. Sorria para os que estavam na fila (lá estava eu).

Sorri de volta, porque achei interessante aquela cena: um bêbado bebum bem vestido em pleno Funcionários, em um supermercado de boa reputação.

Ele parou atrás de mim pegou qualquer coisa ao alcance da mão e disse: o que está escrito aí?

Ele lia a minha pele: "Agora és livre, se ainda recordas."

Parei, olhei em seus olhos e senti o cheiro de cigarro e álcool que vinha daquele rosto de sessenta e poucos anos com um chapéu de camurça de marca.

Depois de retribuir o olhar ele gargalhou discretamente. Virou para tras e repetiu a frase a outro cliente. Voltou-se para mim e disse: o presidente do Equador, um país da América do Sul, disse liberdade para tudo e para todos exceto para o mal e para os maus.

Gargalhando novamente continuou: ele morreu assassinado.

Nos enxergamos.

Fui chamada: próximo.
Despedi-me e pensei qual de nós era mais livre naquela ironia de vida: preso ao vício ou preso ao futuro.


Marina Cangussu F. Salomão


A janela do quarto beira-mar

A meia luz amarelada, 
Atravessando a greta da janela ao fugir da cortina, 
Ilumina minhas flores sem pétalas de meio de primavera
E me diz o quão aconchegante pode ser 
Deitar-se sola em uma tarde de chuva, 
Enquanto o mundo lá fora faz mil planos

Enquanto alguns viajam, outros trabalham 
E muitos preocupam-se com a própria imagem,
Eu me jogo na cama descabelada, 
Pensando no quão singelo esses momentos solitários me são:

Assim delicados e passivos, no seu deixar ir-se, 
Passando vagarosamente pelo infinito de sensações 
Que me acalma e me encontra

Me faz encontrar a mim mesma na essência de minhas cores 
E organização de meu quarto: 
Como meus livros na prateleira.

Então digo em pensamento: 
É chegada a solitária marina, 
Em suas miríades de pensamentos primaveris.


Marina Cangussu F. Salomão

Passagem

O tempo passa
Nas pessoas
Nas coisas
Nos lugares

Passa deixando cores
Brancos cinzas
E coloridos

Trocando nomes
Paredes 
Apelidos

Passa brilhando sorrisos
Amuando olhares
Mudando a vista

O tempo passa
Nas esquinas 
Nas casas
Nos amigos
Nos jovens adolescentes

Ele vem nas preocupações
Ele acalma futuros

O tempo vem
Manhoso
Calado

Brincando com histórias
Construindo memórias

Às vezes o tempo até volta

E minha avó diz:
Eu tenho muitas histórias para te contar, minha fia, são muitos anos.

Marina Cangussu F. Salomão

Consumação

Entrego-me a esse amor que me consome.
E consome, não em depravação,
Mas me acrescenta a cada pedaço que me leva.

O amor é assim para os amantes exacerbados
E nem ligo que seja excesso
Porque a vida nada tem além do dar-se

Então dou.
E adiciono.

Dou-me:
Cada segundo de minha vida à consumação
Entrego-me loucamente ao que me pedem.

E vivo cheia
De leveza.

Marina Cangussu F. Salomão