domingo, 3 de junho de 2018

Esperança

Eu espero por ele
Eu espero pelo tempo
Eu espero por elas
Eu espero a vida
Espera-me a minha família
Eu espero o salário
Eu espero no trabalho
Eu espero por ele
Eu espero a ligação
Eu espero o garçom
Eu espero a comida
Eu espero o sol nascer
O cachorro me espera
Eu espero a chuva passar
Eu espero o moço me olhar
Eu espero a hora do ônibus
Eu espero a próxima folga
Eu espero ela primeiro me olhar
Eu espero a criança
Eu espero a festa
O homem me espera

A vida é cheia de esperança



Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A maré impossível

Mar,
Posso ficar aqui sendo banhada por tuas águas?

Me acalme. Me afogue.
Dê-me ar aos pulmões. Retire-o de mim.
Pois há tanto cansaço ali fora.

Posso derramar-te tudo aquilo que me vem profundo
Encharcando-me mais que a ti?
Falo dessas coisas que consternam ao olhar o mundo...

Posso, mar, ter-te me envolto
Para que me protejas e me ensines a seguir
Apesar de marés e invasões?

Sim, sinto-me invadida desvairadamente 
Todos os dias
Nesse jogar de mundos em minha cara
Como tapas (ou pior que isso).

Chega um ponto que o único que quero que me invada é você, mar,
Cheio de segredos da vida que ainda me falta descobrir.


Marina Cangussu F. Salomão

Poesia com fim

Há chuva lá fora
E aqui dentro é apenas música
Alta, expansiva
Ocupando todas as gretas das janelas e portas fechadas
(He doesn't like to open up very much)
E o cheiro de nosso suor com banana cozida
Para o desjejum.

Nas ruas correm crianças negras.
Me diz o que fazemos aqui: 
tão estrangeiros!
Quem vai entender esse casal de loucos
Com suas dores familiares 
E alguns amores complementares?
Afinal, no fundo, a resolutividade dele é só amor
E a minha doação é a transformação de meu rancor

Lá na esquina da vista da janela do quarto
Que abro para fumar o meu último cigarro da vida
Há uma menininha de 3 ou 4 anos em seu balanço
Tão entretida em seu próprio mundo e imaginário
Que me comove

Acho que ela é como nós
ou nós como ela.

Imaginando mundos de unicórnios de salvação
Salvação de guerra, da política do país,
Salvação da história de nossos pais
E de tudo mais que envolveu a nossa conversa pré-sexo
(Ai loucos!)


Let us, at least, live our lives, Marina. He said inside my mind.

Aí o poema acaba.


Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Poesia Extensa

Olhei o mundo com meus olhos de fora
E vi que depois da chuva, no verão,
Faz um calor de céu azul e ar úmido
Gostoso de viver
De viver olhando os vários coloridos que o mundo tem.

E vi o som de tantos pássaros, cigarras, galos
Ouvi os sapos pularem para os becos,
Os gatos ronronarem seus carinhos.

Vi, na varanda, as roupas brancas brincarem de fantasmas com o vento.
Vi a voz da minha mãe falar de café na cozinha.
E ouvi o Mia Couto me dizer naquele livro:
Milagre é a vida não ter milagre.

Então entendi porque não consigo mais escrever poemas:
Porque a minha vida não é mais sopro sussurrado:
Ela tem estórias tanto quanto um cachorro livre:

A vida é poesia extensa.

Marina Cangussu F. Salomão

Meios e Entres

Sempre me disse das extremidades
E sim: eu sou assim.
Mas no mundo, eu não estou nos extremos
Eu estou nos Entres.

Não nos Meios, com as pessoas,
Nos grupos.

Estou nos entre grupos, entre pessoas.
Sendo sozinha no eu.

Os Entres são vazios.

As pessoas se infiltraram nos seus meios
E por ali ficaram.

Fácil ou não.

Já os que ficaram nos Entres
Ficaram sozinhos:
Porque nunca conseguiram se unir

Pois se o fizessem: seriam Meios
Não Entres.

Aí vamos sozinhos em nosso entres
Sabendo de nosso eu
Mas sem lugar no mundo

Somos originais, eu diria
(Afinal, nunca fui de tantas modéstias).

Mas não sem dor, 
Não sem erro,
Não sem arrepender

Como todos os outros.

Marina Cangussu F. Salomão

Agosto, Setembro, Outubro

Ouvi dizer que entre o céu e a terra há tempo para tudo
E antes de chegar na terra,
Na copa das árvores dessa cidade que habito,
Há tempo para tudo e todas as cores

Então, enquanto ando pensando no rodopiar das idas
Vejo-as materializarem-se em pétalas acima de mim:
São rosas, amarelas, vermelhas, alaranjadas e verdes

Tempos de ipê rosa, ipê amarelo, cerejeira, flamboyant, sibipiruna
Elas vão me dizendo em seu variegado de cores pacientes
O tempo de cada florescer

E apesar de carros, barulhos e pressas
Elas ficam calmas e serenas em seu tempo junto de sua história:
Se mais frio, se mais quente, se mais seco ou mais chuvoso
Se agosto ou se outubro.

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Chapéu de camurça

Havia um senhor hoje, meio largado, meio jogado e completamente bêbado, entrando no supermercado. Estava bem vestido, mas mal apessoado.

Entrou dançando o corpo, não sei se pela música interna ou pelo álcool. Sorria para os que estavam na fila (lá estava eu).

Sorri de volta, porque achei interessante aquela cena: um bêbado bebum bem vestido em pleno Funcionários, em um supermercado de boa reputação.

Ele parou atrás de mim pegou qualquer coisa ao alcance da mão e disse: o que está escrito aí?

Ele lia a minha pele: "Agora és livre, se ainda recordas."

Parei, olhei em seus olhos e senti o cheiro de cigarro e álcool que vinha daquele rosto de sessenta e poucos anos com um chapéu de camurça de marca.

Depois de retribuir o olhar ele gargalhou discretamente. Virou para tras e repetiu a frase a outro cliente. Voltou-se para mim e disse: o presidente do Equador, um país da América do Sul, disse liberdade para tudo e para todos exceto para o mal e para os maus.

Gargalhando novamente continuou: ele morreu assassinado.

Nos enxergamos.

Fui chamada: próximo.
Despedi-me e pensei qual de nós era mais livre naquela ironia de vida: preso ao vício ou preso ao futuro.


Marina Cangussu F. Salomão