domingo, 30 de maio de 2021

A cidade

As últimas luzes já se esconderam

Se foram lentas e tardias na noite de verão

A lua nova demais está atrasada ou se escondeu de vergonha
_ meninas têm disso as vezes

Resta o brilho da cidade
Que se monta como árvore de Natal
E de longe é possível ver sua extensão
Cada pequena casa e vida humana acessa àquela hora

Os olhinhos de gatos, sapos e cachorros também brilham
E te assustam se estiver distraído
Mas eles são poucos agora: nos becos ou nas casas sendo mimados em demasia

Carros com faróis, brisas mais amenas, sons de pessoas adentrando as casas cansados do todo dia, uma sirene passa ao longe, avançando o que resta do transito

A cidade.

Da varanda de minha casa me dou conta desse prelúdio de universo
O inanimado tomado em vida
O poder de um Deus homem

Sei lá! Só sei que achei bonito.

Marina Cangussu F. Salomão 

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Depletado

Isso da metade da vida
Da metade das coisas
Leva uma maturidade incompleta
Uma expectativa depleta

Já não tem mais o brilho de um princípio
Nem carrega a sabedoria do final

Isso da metade das coisas
Cabe por completo a crise

Inconstante incerteza de certo, amor, preguiça

Tanto ainda por caminhar apesar do caminhado
Tanto ainda por planejar apesar do planejado

Queria eu um tempo para viver lentamente.

Marina Cangussu F. Salomão

Já se vai um ano de silêncio

Já se vai um ano de silêncio
Com poesias rabiscadas em papel rascunho
Que se dirigiam diretamente ao lixo

Já se vai um ano ou talvez mais
Que pouco faz sentido o que vejo e o que sinto
E gostaria que tudo isso não se replicasse:

As misérias que se vê ao penetrar a casa de um humano
Ao entrar na vida, perscrutar a mente...

Fico admirada com a dureza da nossa espécie.

Marina Cangussu F. Salomão

Mentiras que dizem a verdade

Eu escrevi em minha pele algumas mentiras que dizem a verdade.
Mas quem se importa com todas as verdades mentirosas que surrupiam nosso ser por aí?

Eu escrevi algumas palavras tortas em folhas avulsas e cadernos 
Que foram para o lixo depois de anos guardados empoeirados no armário.
Quem lerá palavras soltas que trazem qualquer reflexão dispersa?
Nem eu reli antes de decidir por desfazê-las.

Eu pensei algumas coisas e disse outras ou parte delas. Ninguém ouviu.
(Fique no metrô vendo os seres humanos por 5 minutos e verá que ninguém escuta.)
Absolutamente ninguém. Nem aquela pessoa que você paga para isso.

No final eu quis desistir. Desistir de quê?
Fiquei tão confusa que desisti de desistir.
Eu me sentei no meio-fio da marginal 
E deixei os pensamentos passarem como os carros que passam.

Eu escrevi algumas mentiras em minhas costas.
Mas elas estavam certas.
Só se é livre quando se recorda.

Marina Cangussu F. Salomão

Oração

No escuro da madrugada eu disse:
Deus deus deus esteja comigo

O nascer do sol respondeu:
Eu estou com você.

Marina Cangussu F. Salomão

O Fruto

A borboleta
Obstinada e obsessiva
Em seus últimos segundos de voo livre

Uniu-se ao talo
Enraizado e irreverente
Ereto, forte e vil em estrutura

E se tornou flor.

Marina Cangussu F. Salomão

Bruxaria

Eu sinto o cheiro das flores

Eu sinto o cheiro dos ventos

Às vezes adivinho o que vem vindo

Nas mudanças de estações

De luas e de tempos.

Marina Cangussu F. Salomão