sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O voo



The loved birds - Luminatii




São apenas as sombras
De pássaros no céu,
São apenas seu canto de rodopio.
E giram e giram
Até se perderem junto ao sol
E se queimarem de tanta liberdade


Como conseguem voar
Tão livres e tão alto?
E voam e voam e se queimam
E morrem de liberdade.
Antes eles rodopiam, cantam
Há quem os inveje pela destreza


Será que sabem a consequência
Do voo livre, zarpante sobre o céu?
Vejo apenas suas sombras,
O meu voo tem grades de bronze.
Talvez morrerei pela liberdade, 
Mas antes terei o mais belo voo em minha gaiola.


Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Ode à vida/Outra música

E se eu deixasse
As músicas rodarem pela casa
Com a intensidade do sorriso
Que brota em meus lábios


Você escutaria de onde estivesse
E viria quando elas lhe tocassem
Porque agora podemos sentir
Tudo aquilo que não podíamos


O som ecoa na parede.
Que antes torta, hoje certa.
Então o caminho se desfaz
E o fim já não existe


Sei que são outros olhos
Assim como outras músicas
É por isso que percebo
Este outro brilho pela vida


Marina Cangussu F. Salomão



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Nefelibata

A um passo da cortina de nuvens descendentes
Vejo em quadros pintados pelos novos olhos
Todo um passado que há muito quis esquecer


São os mesmos quadros da emburrada infância
Que os olhos velhos mal sabiam admirar
É a mesma sensação estranha de fim


Lembro-me quando disseram sobre a passagem
Era que cada momento passaria
Agora vejo como aqueles respingos não são os mesmos


Penso se os sentimentos são os lembrados
Ou se a memória mais uma vez trai-me
Diante de seu desejo insaciável de ilusão


A cortina anuviada abranda-se
Sinto as lembranças mais amenas
Sinto os sentimentos mais frágeis


_Estou presa novamente.


Marina Cangussu F. Salomão

Maldição

Quero fugir agora,
Para onde me levaria?
Um lugar longe da desconstrução
Longe desse peso que oprime


Desculpe: negaria-te três vezes
Negaria pelo medo.
É esta maldição, afinal
Não é preciso ser sempre igual


O peito comprime-se mais
Porque os olhos veem
A tanto tempo tudo isso
Não é preciso ser sempre igual


As escolhas repetem os fatos
Desculpo-me: negaria-te três vezes
Não por falta de amor
Mas pela presença da aflição.


Quero fugir agora,
Mas não poderá me levar, Barquinho.


Marina Cangussu F. Salomão

Finalmente as memórias se esgarçam

Se sobrarem apenas os retalhos
Farei uma colcha de cor
Para não perder as lembranças
Que iluminam e resplandecem seus olhos


Afinal, descobri que o maior voo
Se dá em uma gaiola
Pode não agradar às suas dúvidas
Mas sempre quis ser tão livre!


Sei que sempre desdenhei a essência
Mas sempre acertei quando dizia:
Eu escolho errar!


O barco se move agora 
E não sei se me leva
Mas sabemos que o melhor seria ir.


Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Ignorância

Olhava os dias eternos
Os laços jogados para o ar
Mínimos cuidados atentos
O sono de olhos abertos
Sempre em sinal de alerta
Ninguém... Ninguém.


Olhava os medos e desencantos
As tardes de aflição desolada
Unhas esmaltadas roídas
Papéis borrados de desconexões
Molhados e vermelhos
Ninguém... Ninguém.


Olhava a desconfiança acirrada
Pequenos detalhes presentes
Os vestidos de lado
A hipocrisia escancarada
Motivada pelo desespero
Ninguém... Ninguém.


Este é o preço pago
À ignorância verbalizada
Ao fascínio pela ilusão
À não admissão de si
Na verdade era apenas
Saudade... Saudade.


Marina Cangussu F. Salomão

Menino

Era um alguém correndo
Desconhecia de onde
Ou para onde
Era um menino _ correndo.


Pouco ele sabia sobre o que via
Nem ao menos notava
Ou sentia
Apenas corria para casa


Convivia com o mesmo vento
Só não sabia que me transformava
Nunca percebeu
Aquele vento forte que soprava


Vento que toca cada célula
Permeia cada fio de cabelo
Bagunça-os soltos
Gingando junto à poeira


Ele corria como o vento
Tocava como o vento
Bagunçava como o vento
Mas não sabia que o vento soprava.


Marina Cangussu F. Salomão