terça-feira, 12 de julho de 2011

Eternidade

Fazia de certa e concreta, nada diversa,
Em busca do definido passo tradicional
Corrupio de vigente infância controlada
Sagaz em modelo perfeito e delicado

Dizia sobre o bem e sobre o mal
E não dúvida ou interpretação
Até crescer-se e sentir o vento que sórdido soprava
E atingia com duras verdades e indefinições

Emanada de sonhos inconcretos fantasiou o que via
Mas a dúvida persistia na tentação de pensá-la
E a crítica latejava em seus olhos
Tão novos na indiscrição e atentos na covardia

Pesada em erros definidos de infância
Voava alto em liberdade
E não pura sabia-se eterna sua morada
E viu-se que era ela a quem descrevia.

Agora diz-me, Fé, onde abrando meus erros
Se cresci na certeza e amadureci na falta
E incompreensível, tanta dúvida 
Aproxima-me de Tua grandeza

Ah! Perdão barroco que tanto espero,
Professo-me por amor ao eterno
Envolto pelo rancor do mundo
E eterna me sinto, mas não me faço. 

Marina Cangussu F. Salomão

Certeza mutável

Minha essência se desmancha tenra em equidade
E minha esperança se vê certa
Não que certeza seja fato ou coragem
Mas tudo em vontade se perpetua

E essência não são palavras, são vontades
Desejadas na luta dum ideal
Concreto, mutável, amadurecido

Assim, ideias perpetuadas em ações
Desenrolam-se no definido gosto por ser
E não meter-se por entre outros
Tão sórdidos quanto a cópia inefável da alvoroçada certeza.
Marina Cangussu F. Salomão

terça-feira, 5 de julho de 2011

Controle de vôo





Preciso ater-me à admiração
Observação e análise
Para sentir o que há
Perceber o que se vive
E conhecer a música
Que me rodeia e me toma
Analisá-la e decidi-la
Sem permitir que me invada
Que me permeie
E desapacente-me
Preciso criticá-la
Preciso escolhê-la.


Marina Cangussu F. Salomão

O varredor

E se quiseres vivo
Ou nunca será
Pois não te peço morte
Peço apenas sorriso
Insincero, sei


E sorte dos que vão
Tão viva os que veem
Pois é tão efêmera a voz
Tão simples o fato
Desmanchado em percepção


E se fizeres vivo
Pois parto quando quero
E volto sem destino
Veja: note a corrida


E nunca finde agora
Tenho que ir, sei
Hora de ser passante
E ser passado


E não importa que existo
Importa apenas que sei
E se pedires fico.


Marina Cangussu F. Salomão

Coruja em Pleno dia

                    Ainda que eu tivesse o conhecimento
                    De todos os mistérios e de toda ciência,
                    Se eu não tivesse o amor eu nada seria...



São tão diversos e tão iguais
Tênues, tão tênues
E dir-se-ia sobre olhos
Sobre seus retratos
Mas não importa
Nada importa ante os sentimentos
Mesmo que se movimente os lábios
Em pensamentos tolos
De que vale a inteligência
Ou o homem que passa
Atarefado em beber da água
Que jorra do público?
Vale mais sentar ao sol
E ouvir a coruja em pleno dia.
¹Pois sentia agora que a única coisa
Que vale a pena dizer
É o que se sente, afinal.
A inteligência era uma estupidez.
Devia-se dizer simplesmente o que sentia.


Marina Cangussu F. Salomão

¹Virginia Woolf in Mrs. Dalloway

Bobos

Por que não param os passantes
Para escutar a música silente
Dos bobos e insanos?

Desenhado ao som da voz
Pinta-se negro sentado ao sol
E não triste (não triste)
Debruçava sobre a árvore:
Deleite dos pensamentos
É que nele via-se a alma
Enquanto outros nem se via olhos
Passam. Passam passantes.
Importaria quantos vão
Se não fosse aquela imagem.


Marina Cangussu F. Salomão

Os puros

Ao percorrer as questões
Em busca do eterno
Ínfimo que se perfaz
E desfaz no perambular
Diário de vidas e almas
Descobri-o no doce espaço
Confabulando com o etéreo
Em fina camada de solidez
Fez concreta as esperanças
Não para os tórridos
Mas para os simples
Onde a viuvez monótona
Da pureza ainda
Se casa às dúvidas
E fez-se só e lindo
Como o sol pelas folhas
Às sete central.


Marina Cangussu F. Salomão