sábado, 13 de agosto de 2011

Parto

Não me lembrava da dor imensa do parto
Nascer e soltar-se infante e desolado
Talvez febril e com certeza triste
Ir e sentir patético
O desenvolver e disputa do outro
Que cresce e empurra, suga e derruba
Por que tão sórdidos?
Aflige-me novamente os medos infantes
Inseguros em tua ausência.


Marina Cangussu F. Salomão

A Felicidade

Ressoava alto o que elas não fariam
A que seguiriam, o que sonhariam
Era claro os passos
Ainda mais na luz das ações
Alto, bem alto, o grito e as regras:
Boas moças, boas mulheres
Bons filhos. A Felicidade!
Mas pouco claro era a ausência
Em dedicação divina e terna
Felicidade... Felicidade!
Era castrada.


Marina Cangussu F. Salomão

Manifesto

Odeio essa voz que grita
Se espalhando pela casa
Estridente, autoritária, irritante
Com olhos ignorantes 
Extremos em reinado
Acima de tudo
Menos de seus próprios pecados.
Tampo os ouvidos
Mas ela continua a vibrar
Até implodir tímpanos
De irritações, exaustos.
Voz infame sem razão
Sem pensamentos, sem dúvida
Que não questiona, nem reflete
Nem reduz para sentir
Ou escuta para traduzir,
Tola de tanta manipulação
Voz que julga, que aponta
Se exaspera nos erros
Tropeçados de tão seus,
E tão deleite se alheios.
Voz que não se olha.


Marina Cangussu F. Salomão

Rememorar

A tristeza veio cedo
Na primeira xícara:
Como o tedioso pode ser agradável?
O insosso está agora tão denso
E desejado em fortes dores
Que arranham-se perante a perda.
É que antes indiferente,
Por fortalezas inânimes e vazias
Rodopiando sórdidas em redenção lenta,
Hoje procurado, atento
Diante da decisão de aceitar
E recomeçar e redescobrir.
Porém, toda decisão brota
Linda e delicada
Sorrindo sagaz e astuta
Mas também arde, sedenta
Por mais ou pelos pecados.
E logo cedo aquebranta-se
Na morbidez esquecida
Relembrada pelas chamas
Invadindo toda a lembrança.


Marina Cangussu F. Salomão

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Averbal

As palavras já não saem 
Como antes, fluidas e fáceis
Rabiscadas no papel.
Não surgem na mente
Combinados água e sol,
Nem mesmo o raciocínio
Externo e congruente,
Falha-me ao desabrochar-se
Em razão e conclusões.
Porque tudo segue para um
Os pensamentos se convergem
Para um único ponto,
Tão desejado e completo,
Que difícil se torna
Ver mais longe, além
Com olhos míopes
Treinando cerrar-se.
A concentração em poucas ações
Não sabe-se sadia ou correta,
Na verdade questiona-se.
Mas impossível de controlar
Cede, talvez confusa
Às decisões distorcidas do cabal.

Marina Cangussu F. Salomão

Ouça

Cante a quente água
Que lhe esbalda
Em forças insanas
De igual desespero
Cante: grite alto
Com vozes de louvores
Loucos de paradas
Cante a água que lhe afoga
E lhe queima
Descontrolada de seu poder
Cante: urre, 
Para ser possível ouvir.

Marina Cangussu F. Salomão

Resta

És tão complementar envolta em mim
Que me despedaço e enlouqueço
Tonto de deleite armazenado,
Em fins do amargo
E livre o que guardei.
Agora vendo-me partir
Sofro calmo em insensatez
E trépida na face desloca-se
Não mais trêmula que tua presença
Em músculos meus,
A lágrima, desejada em
Lembranças frágeis e doces
Que fazem insana a vontade
E paciente os gestos
Como aquele de minha pele
Sentindo amena e rígida a tua
Macia em encaixe fresco
E certo. Tão certo como a decisão
De despedaçar-me e deixar
Livre tudo o que havia de sentir.

(E nada resta, a não ser este sentimento)

Marina Cangussu F. Salomão