segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Nuvens

Da janela da casa se via, ao fundo, as montanhas se sobressaindo e limitando até onde se ia o olhar.
Junto a elas um céu encantado e com vida, que variegava em cores e intensidades, conforme o dia e as horas.
E às vezes rosa, amarelo, azul ou seco.
Poucas vezes com nuvens. 

Nunca se via nuvens naquele céu escaldado.

Mas naquela manhã, ele estava, no longe, com tantas nuvens querosas, que elas abraçavam toda a montanha. Com desejo, carinho e amor.
E de cá, nada se via de montanhas: só se via nuvens densas e graciosas.
E a barreira e o limitar de vistas de pedra: eram só nuvens ultrapassáveis, macias e úmidas.
Os obstáculos ficavam menores.


Marina Cangussu F. Salomão
Pai Pedro 01/2017

Da vida de Pai Pedro

A gente sabe bem pouco das coisas da vida
A gente sabe quase nada

E fica aí num tentar observar
Tentar absorver.

A gente aprende, não vou dizer que não aprende.
Mas a gente nunca sabe de nada.

A vida é ampla demais
As pessoas são profundas demais

Da vida a gente não sabe um terço.

Marina Cangussu F. Salomão

Árvores

As árvores eram todas caídas pelo vento naquela estrada beirando o rumo de Tapeirinha (ou seria Barreiro Branco?). Vento que vinha em Agosto, época em que já fracas de sol e seca nada faz das árvores suficientemente fortes para se manter.
Então caem, todas para o mesmo lado, só galhos cinzas, em um chão pálido.
Raízes para cima, sem qualquer esperança de vida.
Porém, quando chega Novembro e suas chuvas poucas e concentradas, algo de milagre ali ocorre. E o último filete de raiz que toca o chão já faz brotar os verdes claros mais lindos na copa caída.
Um filete de raiz que lhes sobra, faz um florescer maduro até Março.
Assim são as árvores de Tapeirinha.
Assim as pessoas:
Elas me chegam antigas em seus cinquenta anos, com roupas velhas, filhos doentes, dores de coração, dores de barriga presa, já não engolem a vida desde os 25 e não sabem ler o que lhes está à frente. O olhar sofrido da vida que amadureceu cedo demais (rápido demais).
Olho-as e mais parece que qualquer vento, nem precisa esperar Agosto, já as vai derrubar.
Mas de repente, como que por magia ou algum fascínio da terra, são elas que me acolhem e me sorriem, oferecem à mesa o que tiverem de seus poucos salários.
Elas brotam: verde claro, marrom tamarindo, vermelho seriguela madura, amarelo pequi.
Resistente essa terra.
Resiliência, me ensinaram.

Marina Cangussu F. Salomão
Pai Pedro - 19/01/2017

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Minha paixão

Ele é a minha paixão mais intensa
E não digo por ser a atual ou por olhar em seus olhos agora e nao ter coragem de dizer diferente
Digo porque é a mais pura verdade

E repare que sempre fui muito intensa em meus amores
Que podem durar anos de paixões que se renovam e repetem a cada vez que se torna mormaço
Ou ser completa em poucos meses de tão tudo que se viveu

Mas é que com ele não é uma intensidade concreta
Com relatos de experiências vividas
De fugas de loucuras de decisões precipitadas

Ele é uma intensidade sentida
Uma energia transcendental desde o primeiro instante
Com aviso dos guias e magnetismo incontrolável
Repleto de cheiros intrometidos
E insuportavelmente irresistíveis

Ele é a minha paixão mais gostosa e mais intensa.

Marina Cangussu F. Salomão

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

As coisas que ainda não compreendo no ser humano

Às vezes eu acho 
Com quase certeza
Que ele não existe

Porque ele é tão calculado 
Todo o tempo
Que uma pele não é capaz de se controlar

Não sente frio
Não sente fome
Poucas vezes está cansado
Não fala alto
Não se altera
Não desmodera

Às vezes 
Com quase certeza
Eu acho que ele se inventou

Para ser sincera
Eu queria ver ele quebrando paredes
De ódio, de amor, de dor, de paixão
Só para gostá-lo um pouco mais
Assim bem como ele é

E diz-se que comigo ele é mais ele
Ele é mais dele
Sem precisar mascarar

Como podem pessoas viverem no palco
Como podem viverem de salto alto
E maquiagem.

Marina Cangussú F Salomão

O mormaço

Bom mesmo é sentar 
Num canto confortável qualquer
E conversar aquelas coisas bobas de todo dia
E de teu rosto ver expressões leves 
De poucas preocupações
Dessas que sabe que estarei ali todos os dias
E ouvir e falar e apenas olhar
Sentir teus olhos em meus detalhes
E então tocar tua mão
E esse ser nosso único toque
Cheio de amor
Até decidirmos voltar para casa
Juntos.

Marina Cangussú F Salomão

Ave do Contorno: 6 da manhã de um dia útil

Elas passam apressadas
Ressabiadas
Arrumadas
Passam rezando o terço
Pensando no berço
Desesperadas
Umas param e pegam o ônibus
Outras correm desconfiadas
As outras olham desesperançadas
E vão feias e bonitas
Roucas e cortiças
E as ricas nunca passam
Vão segurando as pontas
Aguentando contas
E homens mal educados

Todos os dias elas passam...

É dificil ser mulher nesse mundo

Marina Cangussú F. Salomão