quarta-feira, 9 de maio de 2012

Diagnóstico



  Você se concentra demasiado nos horrores.
  Era o que dizia meu pensamento, sentado a minha frente em forma de gente. E eu me respondia que era desde quando me mudei para aquela terra de céu curto e chão que prende o rosto e o espírito.
  Mas eu mentia, para fugir do diagnóstico.
  Era assim desde quando minha memória falha e a única matéria que guardou foi aquela melancolia nos fins dos dias, misturada com a saudade de um dia só.
  Nasci melancólica e depois.
  Nasci com defeitos.
  E ninguém viu nas tosses secas repetidas e sem motivo, nos choros incoerentes da birra da infância entre brincadeiras com bonecas apenas, nos pedidos de cuidado pouco arraigados, nos incômodos na garganta me sufocando, nos tiques milhares e diversos, e tampouco viram nos meus pensamentos, que eu era só, desde que nasci.
  E agora ninguém vê nos medos repentinos nem nas ideias sem controle.
  Aprendi-me com o tempo e descobri como burlar minha própria razão.
  E para ela sou sã. Para eles sou normal. Apesar do estresse, do excesso de chocolate, da revirada dos olhos, dos prantos escondidos, do medo indefinido: normal. Independente da fuga e da falsidade: de justificar nos livros e ser tão livre.

  Só não sou livre da dor, que sinto ao confessar tudo isso.


Marina Cangussu Fagundes Salomão

Desolação em terra fértil



Corro para meu exílio para sucumbir-me ao cansaço
E perco a luta nos traços insones da solidão dos dias cheios.
E invado-me a mim mesma, encontro as partes soltas e só.
Lá o tempo some por entre as mãos sem ater-se a vista.
Aqui consome-me a existência,
E por mais que alargue as pupilas,
Mais minha duvida aumento¹
E descubro nela meu alento.

Marina Cangussu F. Salomão
¹ Cecília Meireles - Marcha

Acrobática


Vou gritar para que apenas
Os surdos escutem meu sussurro
E pintá-los em arte de dança arredia
De próprio ritmo.
Mostrar-lhes cada passo acrobático
De pernas e cabeça para cima.
Pois o que se vê é excesso de pés
No chão e também vistas.
Marina Cangussu F. Salomão

A estrela cadente do dia


Era cadente aquela estrela
Que rasgava o céu do dia
E anunciava o novo pedido.

E em sua linha de tesoura rodopiava
Todo o azul claro na esperança de vê-la
E fazer conforme pronunciava.

Sua cadência ia de encontro ao alto
Para purificar a vista de sua fala
E para tornar pobre todo o antes.

Porque agora havia a nova notícia
Que proclamava em seu zumbido de corta céu
E escutariam todos os terrenos de ouvidos.

Marina Cangussu F. Salomão

terça-feira, 1 de maio de 2012

Os cachorros


Ia o homem com a enxada na mão
A seus pés seguiam dois, sempre na proteção

Podiam seguir nas pequenas ruas
Mas preferiam seguir o cenário das árvores nuas

E seguiam o percurso natural
Na fantasia do tempo que lhes era real

Os fiéis escudeiros nunca abandonavam
Fosse cerrando madeira ou quando caçavam

Ia juntos tirar leite e cortar cana
Desejando boa sombra e a comida da Dona Ana

Contavam causos, reclamavam da vida
Uns ouviam e o outro clama a Compadecida

Adoravam o mesmo tempo no capinzal
Quando o mato subia verde e pulavam no aguaçal

Os pequenos giravam mundos de pata em pata
E ensinavam ao homem a beleza simples e grata

A noite, quando já era mais tarde
Recostavam em seus cantos, longe da verdade

E os sonhos se coincidiam
Que os outros dias igualzinhos íam.

Marina Cangussu F. Salomão

No exílio


Como posso descrever o instante de agora
E sinto o mundo em meus braços, sem peso
Ele passa tão lentamente...
O tempo longo que clamei ter
Tão lento quanto o balançar do vento
Na rede que me embala na sombra
E o silêncio de zumbidos poucos
Que permite sentir a água que cai nas pedras
E posso vê-la clara, brilhante
Com o mesmo sol que me brilha
Se escondendo detrás das minúsculas folhas
Incrível meu desejo de criança
Daqui vejo o joãozinho saltitar entre os galhos
E entrar cabreiro em sua casa
Ou vejo as borboletas: pretas e alaranjadas
Ou ouço pequenos gritos de pássaros
Como os da flauta que tocarei
São tão doces, tão diversos e tantos.
Como diziam os livros de minha infância
Que guardei na memória
Me deixe ficar aqui, só mais um tempo!

Marina Cangussu F. Salomão

Amada


Ela tem a quietude dos dias felizes
Com seu frio ameno
Olhado pela janela
E o silêncio: doce e calmo
De tantas montanhas
O verde estranhamente negro
Lembra sua herança
De anos passados
E segredos vividos
É linda, calma e plácida.

Marina Cangussu F. Salomão