quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Apoptose

Tire-me de mim
Antes que minhas próprias garras
Ensanguentem-me
Vestindo-me de guerra
E destruindo meus pilares 
Falsos em véus brancos.
Antes que mostrem
Minha pele solta
A rir do que sobrou
Sem verde e sem rosa
Sem a ilusão de antes.
Antes que minhas fraquezas
Se esparramem de suas gavetas
Bagunçando todo o chão
E não haja onde pisar.
Antes que eu arranque minhas asas
E desista de voar.


Marina Cangussu Fagundes Salomão

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

As batatas

Corria apressada, fugindo para o outro lado, na ânsia de proteger-se deles. Até ouvir aquele estrondo e ir ao chão seco e quente, sujo do fim do dia. E no esforço de mover sequer músculo envolto em dor que penetrava-a agudamente, expandindo seus limites ao tomar-lhe, desejava imensamente que os outros chegassem logo, na esperança incrédula de que viriam.
E eles chegariam antes que as outras pontadas lhe retirasse o último instante de consciência de seu tempo.
Eles já deveriam ter chegado guiados pelo som treinado... Deveriam mas nunca vinham, enquanto as pontadas de protesto começavam a rasgar-lhe a carne.
Sim, o som já lhes era corriqueiro e ela era nada além de mais uma manifestação de desprezo. 
Mas ela não era igual. Ela era ela, afinal!
E isto lhe fazia toda diferença: doía nela agora e importava a ela a última chance de permanecer no triunfo de cada respiração. E junto permanecer sentindo, planejando... E construir o que desejara - e desejara muito, quisera fazer a diferença e sentir-se diferente!
Porém, agora, jogada em meio a tanto sangue, percebia que quaisquer dos anteriores menosprezados também haviam planejado. Que também teriam mudado. Que quem morre também sonha!
Mas por descobrir isso deveria ser a escolhida para voltar e avisá-los que não estão protegidos em seus sonhos, que nunca estariam salvos.
Porém a alternativa também não vinha nunca em anjos de brilho e branco dar-lhe a honra de ser a escolhida. E sem a sua própria salvação, em morte pouco nobre, sentia aquecer-lhe a cara amassada no asfalto quente, não sabia de sol ou sangue. 
E já escuro, em noite nova, esqueceu dos revoltos a brincarem com seu corpo, quase novamente pó. E sentiu que a ele voltaria (mas não para onde deveria voltar). Seu pó constituiria aquele solo podre em que estirava-se, tão nojento que há tanto detestara. 
Terra infértil, que agora a recebia com sorriso inóspito e um canto irônico.
A primeira vez que a vira, também em asfalto de muitos carros em noite média - já sem luz, mas não imaginava sem vida - em corredor de paredes de papel e enfeite de algumas sucatas, formando o que chamavam de casas com quintal repleto de ratos criados. Matados no almoço, com água igualmente suja. E diziam que lá moravam vidas de gentes.
Gentes que se rebelariam e apareceriam nas manchetes: "Estudante morta em plena rua".


Marina Cangussu F. Salomão


A saudade

Quem me fará 
Por loucas tardes
Revirar-me
E em sorrisos breves
Condensar a insanidade
De ser sincera
Em dois


Quem me colocará
Nua de esconderijos
A rir até do óbvio
E como criança
Enfeitar-me lúdica
E ignorante
De pobres bolhas de sabão


E quem me fará
Soltar palavras justas
Tão mais abertas
Que sonorizem jardins
E paredes
Embasando a concretude
De ser um só


Se há ruas e mais ruas
A construir-se
Para retirar-te a proximidade
E outras mais que ainda
Não andamos soltos
Completando-as conosco
E fazendo-nos completar


Se há bravos chingos
Dos outros
Irritados por sermos do outro
Obrigando-nos
A obstruir passagens
Que queríamos 
Para a vida cabal


Se a saudade não parte
Nem mesmo abandona
Desconstruindo o fato
De estarmos tão leves
E sabermos flutuar
Pois flutuantes no céu
Nos encontraríamos.


Marina Cangussu F. Salomão

Escrita

Quando as palavras etéreas
Ecoam rebatendo nos papéis
Sinto acalmar a ânsia
E subir mais um pouco
E exaltar e aproximar
Um pouco mais do Eterno


Então apacenta-me
Em horas de cumprimento
Pois solta-se aos poucos
Meu pó em membros
Certos e bem construídos
Para alcançarem o vento


O vento em poeira e voz
Alcança a terra e o ar
Deixando a cada um
O que lhes resta e pertence
Então retorna vazio
E invade-me de sopro.


Marina Cangussu F. Salomão

Memórias contínuas

E lembrava com pequenos sorrisos
O lúdico do outro tempo
Com memórias selecionadas
No que era aprazível e fiel
Era-se a infância em brotamento
De ilusão do perfeito
Que em tanta nobreza
Preferiu por vingar-se
Mesmo no solo áspero
De tantos dias
E permitiu o momento
De exaltação de seres
Antes tão rejeitados
Que lindos, em infância
Vergonhosa e boba,
Concretizaram na inocência
Bons caminhos.
Que permanecerão sólidos
E pouco só.


Marina Cangussu F. Salomão

A (des)criação

E fez concreto e desnudo
Certo nos pensamentos
Anticinestésico e fosco
Sem esperança e desespero
Em horas contadas
Com esforços devidos e calculados
Afônicos e impossível
De dança natural
Exceto a dos passos técnicos.
E fez só na busca perfeita
Pela aversão do erro
No desmontar medroso
De refazer e relocar
Sem brilho e fluidez
Mas gosmento em congestão
Que impedia todo o fluxo
E estancava o ilusório
Exceto o das palavras solas.
E fez-se claro e certo
E viu que não era bom.


Marina Cangussu F. Salomão

Dias duetos

Abreviado o solo
Em visitas doces
Enfeitava os passares
Com medidas de sustento
Que acrescia-lhe aumentos
E retirava o mesmo
De todos os dias,
Punha-lhe altares
Para subir
Repletos de cuidados
E a impressão
Era esculpida até
Nos arredores
De tanto que emanava,
E o que fosse
Era agora mágico
E no fantástico infante
Construído em meio
A corredores recheados de flores
Fazia o si verdadeiro.


Marina Cangussu F. Salomão