segunda-feira, 13 de março de 2017

O amor. O rio. O amor

O amor que sinto por ele é tão gostoso
E tão completo, que ousaria dizer que
São como as águas de um rio longo e largo
Que desce tranquilo seguindo seu curso
Sem pressa, sem raiva, sem medo.

E por onde passa envolve com carinho e afeição
Deixando a margem calma e também o ar umido.

Acalma a vista,
Esfria o sol,
Molha o ar.

Não há empecilho que o transtorne. 
Tão forte que leva em seu caudaloso rumo as pedras, os galhos, as folhas,
As latas e garrafas jogadas por terceiros.
Lava.
Leva tudo...
Não por ter que aguentar
O rio sabe pouco de obrigações
Mas porque não é pouco o que o desequilibra e o desfaz.
Então não importa o que lhe cruza ou lhe penetra

Ele leva tudo consigo e lhe cabe muito.
Porque ele é como o amor:
Doce, suave, tranquilo e forte.
Destemeroso.

Marina Cangussu Fagundes Salomão 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Dicionário do Norte de Minas

Madrocê = amadurecer
Mi = milho
Isminuiu = diminuiu
Saudível = saudável
Abeira pra cima (não conseguimos traduzir ainda)
Otónti = anteontem
Arribar = levantar
Vexame = palpitação
Obrar ou disistir = defecar
Ataiar = encontrar, cercar
Dar lançadeira = vomitar
Córg = corrego, rio, riacho
Oitúb = outubro
Iscupir = cuspir
Sussar =  embalar, balançar, ninar
Lagrumação = lacrimejamento
Fregamar = inflamar

Sobre o fim do mundo

Ontem
Apareceu um arco-íris no céu
Dessa cidade sem cores

E poucos viram suas luzes
Porque tantos olhavam o chão
Ou olhavam os que passavam (por falar)

Lugar de raizes excessivas 
Diria.

Andaram nas ruas vazias
Sem olhar para cima
E sem sentir a pouca chuva.

Lugar de desejos sem horizontes
Pensei.

Ontem apareceu um arco-íris
Ou melhor, foram três no céu.
Mas ninguém viu.

Pois estavam ocupados
Pensando nas dores 
Que não querem saber.

Lugar de afetos incompletos
Concluí.

Tem pouco horizonte
E pouca amplitude
Os de corações carcomidos.

Pai Pedro - 21/02/2017

Marina Cangussu F. Salomão

Barcos da vida

Estávamos viajando, eu e ele. Em um barco. 
Vimos lugares lindos, descobrimos outros tantos. 
Aventuras, muitas aventuras.
Nós sempre juntos. Nós dois: e mais três pessoas, no princípio, que levamos em nosso barco até uma praia: a primeira já veio desde o começo e desceu rápido; a terceira entrou nesse momento, mas tambem desceu logo à frente; já o segundo veio desde o princípio conosco e se prolongou alguns meses sem saber quando descer, ate descobrir uma ilha agradavel onde ficar.
Depois que todos desceram tivemos nossos melhores momentos: ilhas, alto mar, praias maravilhosas. Sempre juntos. Só nós dois.
Porém, em algum momento que nao sei qual, nosso barco, que era simples, singelo, de madeira _ uma canoa na verdade_ começou a furar e entrar a agua do mar. 
Acho que esses furos foram o excesso de peso ao carregar tantas pessoas conosco. Pois ainda tiveram dentre eles o que esqueceu alguns objetos que julgo terem perfurado a madeira, quando estávamos deslumbrados com tudo o que víamos no caminho a dois.
Nos primeiros buracos eu sozinha consegui tampar. Enquanto ele, como de costume, ficou no remo, decidindo o rumo a tomar.
Entretanto foram surgindo cada vez mais buracos e sozinha eu ja não conseguia mais. Pedi que ele me ajudasse: deixe o remo um pouco, me ajude a manter o barco. Porém ele disse que nao podia, como podemos nos deixar à mercê da maré, simplesmente _ ele disse.
E surgiram mais buracos e a agua enchia o barco que ja nem andava mais, de tanta agua. Pedi para ele me ajudar. Porém ele, em uma atitude que penso ser desespero ou medo contidos, me afastou de todos os buracos que eu ainda conseguia tampar e disse para que eu deixasse o barco afundar e nós dois fôssemos juntos.
Eu, desesperada, nao queria a morte. Chorei. Insisti novamente que me ajudasse a salvar o barco. 
Ele se negou. 
Entao saltei no mar, me salvei. Enquanto o barco e ele se afundavam.
Então eu disse triste: vá barquinho, vá. Já que você consegue ir e eu não.

Marina Cangussu F. Salomão

Relatos

Cristiano chegou na escola no primeiro ano escolar: uma criança com os cabelos bem loiros e bem crespos. Como todas as outras, ele estava sedento por descobrir aquele mundo das letras que ainda não o pertencia.
Sentou-se no primeiro dia, no segundo, até o final do primeiro mes, mas haviam tabtas outras coisas em seu mundo para que compreendesse e a esvola nao o ensinava, que aquele mundo ali perdeu-lhe a graça. Depois de um mes, entao, raramente parava quieto: nem por suplica da professora.
Chamaram o pai: nao tinha. Chamaram a mae: só viajava. Veio a avó, com sua bolsa de colostomia mal cuidada, para a reunião com a professora, discutir o comportamento de Cristiano.
E a avó dizia: "esse menino é capeteado. A mãe dele, aquela bundona, vive levando droga por ai. Nao quer saber dos filhos, e eu ja nao aguento mais. Nao quero saber desse menino".
A escola em que Cristiano estudava beirava as tres principais favelas da cidade e acolhia todas as crianças carentes da regiao. As situacoes sociais ali eram precárias. Mas se fazia o que podia para alfabetiza-los. Quando possivel.
Cristiano nunca conseguiu ficar quieto na sala e prestar atencao. Nao conseguiu aprender a ler e apos dois anos de repetencia, ele sumiu da escola. Na epoca provavelmente com seus 9 ou 10 anos. Esperto o suficiente para levar coisas daqui para ali.
Aos 16, apareceu novamente por la com pressa de aprender a ler e a escrever, o minimo que fosse. O fez em 6 meses ou 1 ano, e na escola nao voltou mais.
Poucos anos depois se ouve entre os professores a noticia de que seu nome agora era Xisto e que ele estava preso por assassinato. A professora que o recebeu no primeiro dia de aula de sua vida ainda tinha um retrato com toda a turma e ele: o menino de olhos sedentos e cabelos claros, caracteristica que o destacava, pois naquelas fotos quase todos eram negros, exceto a professora.
Tempos depois passou no radio que ele havia fugido da cadeia em uma rebeliao dos presos e que agora ele era o " Dono do Morro do Cemitério": andava de carrao, muitas mulheres e naquele cidade do interior nao ficava muito tempo mais. Vivia viajando, como sua mae.
Teve seu tempo de gloria. Completou 25 anos, como poucos de seu tipo completavam.
E aos 31 anos foi morto com 19 tiros, na garagem do predio em que morava na capital do estado. O morro ja havia sido tomado por outro grupo. E agora os bandidos da capital, amigos do Xisto, iam todos para la vinga-lo e tomar o morro de novo.
Na cidade, a professora so ouvia as noticias de medo: os bandidos da capital vao invadir nossa cidade. Ninguem mais ficara seguro nas ruas. E no velorio do Xisto, nem os amigos da capital.

Marina Cangussu F. Salomão

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Rio

Pus o pé na água.

O dia estava quente e o ar muito seco, a pele torrava e rachava, o nariz não conseguia sentir o ar. Cansava. O calor cansa.
Então fugi _ eu gosto dessa palavra. Saí correndo com companhia, com um rumo mal arrumado. No meio do mato. No chão de terra.
Assim, sem hora para parar.
Fugimos.
Tinha algumas angustias comigo: umas coisas que disse sem dizer por completo. Eu estava muito tagarela esses dias. Precisava ir-me embora correndo, pedalando, sem fôlego, para me calar.
Então fui. Olhei ainda sem conseguir ver no princípio da trilha. Senti o vento pinicar o meu braço, ao invés de acariciar.
Estava rápido aquilo tudo: a velocidade do pneu, a velocidade do pensamento, a velocidade dos sentimentos.
Não me perguntei o que é que eu sentia. Não sei dizer: eu o amava.
Sim, aquele meu parceiro de estrada. 
Mas eu me doava tanto e pedia tanto que aquilo tudo me sufocava. Eu tentei. Juro que me esforcei: Segurei os meus amores transloucados de rotina, evitei afogá-lo em minha avalanche _ já afoguei outros antes, e a esse não quero machucar. E ele também não quer afogar: vive me empurrando para o lado, pedindo para respirar.
Ele me confunde. Eu me confundo. É isso. Com esse amor diferente que nunca senti (e olha que já tive muitos amores para sempre).
Fui, mesmo com ele comigo. Fomos.
A estrada de terra trepidando minha bicicleta sem amortecedor: quem sabe assim as coisas aqui dentro se reorganizam.
O ar continuava seco, a rota um pouco confusa e sem ter destino: bem igual o rumo de nosso desejo comum.
Fomos correndo, porque essa evasão desesperada é típica de nós dois separados e nós dois juntos.
Em sei lá que tempo, quando os pulmões ainda não estavam exaustos, o mato nos acalmou. Ele nos presenteou com a imagem mais linda para esse momento de angustia por estarmos juntos (duas almas livres).
Era simples: uma casa branca velha, carcomida, só de telhado, na beira de um rio que se alargava e dava algumas poucas voltas lindas no verde; o sol se punha; o vento fazia as árvores sorrirem; os pássaros jantavam os peixes da superfície. Vários tipos de formigas, besouros, pássaros, sapos e peixes. Vários sons silenciosos. Várias cores variegadas.
Vários nós se dissipando e desfazendo.
Meu pensamento se aquietou e eu quis dizer que ele podia ficar do meu lado, mesmo em nosso fim de dia. Indeterminado. Fique indeterminado.
Eu não disse. Eu só senti.
Eu pus o pé na água. E ele também.

Marina Cangussu F. Salomão

Id (iossincrático)

Ele tem muita certeza do meu amor
Quando chegou a porta estava escancarada
Sem chave, sem tramela, sem cadeado, sem proteção.
Chegou. entrou. se acomodou.
Nunca pediu licença para morar em meu ninho.
Largou todas as coisas por aqui
Bagunçou tudo.
Depois voltou bêbado e tonto
Pedindo para lavá-lo e deitá-lo
Derramou em mim um pouco de álcool.
Nunca pediu desculpas por desrespeitar o meu ninho.
Depois até teve vergonha e ficou mais quieto
Ajeitou algumas poucas coisas na prateleira
Disse que ia se organizar, que queria ficar
Tudo isso falando sozinho para o espelho

Agora já não sei mais: às vezes ele quer sair correndo
Me abandonando
Me deixando sozinha

Ele é instável demais.

Marina Cangussu F. Salomão