domingo, 9 de outubro de 2011

Lívido

A pouca luz que penetrava o vidro
Demarcava o relevo delicado e bem feito
Da mistura dos músculos entrelaçados
Em lembrança de Davi completo em sua amada
E bendito era o pequeno raio
Que lhes alcançava em pintura lívida
Enlanceando mais desejo e ternura
Em pouca fala e pouco som
Com frequência luminosa 
Reduzida comparada à do amor
E da frequência emanada pelos bons sussurros
Que unidos emperfeitavam o momento
De nudez de vestidos e vestidos de nudez.


Marina Cangussu F. Salomão

Cavernoso

Voavam em asas diferentes
Sustentada por outra ideia
E buscavam e construíam
Novas asas como aquela


Compartilhavam o ninho
E defendiam-o com delicadeza
Enfeitavam-se com iguais penas:
Todos frágeis, todos pensantes


Em seu mundo irrestrito
Voavam além do umbigo
E aterrissavam em tentativa
De tocar os outros


Não que se soubessem certos
Tão pouco santificados
Na verdade eram loucos
E viviam na mentira da grande luz


E morreriam por sua fé.


Marina Cangussu F. Salomão

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Ao mendigo desta manhã

Estavam todas as manhãs
Enrolados junto aos germes
Jogados em calçadas
E, parte do cenário, não os via
Não notava o frio que sentiam
Sabia-se que não deveria estar perto
Que eles bebiam e se sujavam
Mas nunca parara para ver
A alma que lhes rodeava
Pois internamente em fome
Havia secura e desespero
Impossível de habitação de almas
Que fieis a seus corpos
Permaneciam próximas
Lembrando-os de sua situação
E longe do idealismo burguês
Perfurados de descrença
Viam nossos bosques sem mais vida
E suas vidas com poucos amores.


Marina Cangussu F. Salomão

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A pipa

Soltava pipa com a desculpa de olhar o céu
E longe via as nuvens quebrando seu azul
E sussurrava seu último soneto para o dia
Aquele que forte despencava em chuva
Despencando junto seus sorrisos
Desmoronavam em felicidade de menino
Sem ser vã em brincadeiras pequeninas
Ao sentir toda a presença do valor
Era a presença de sol vivo a queimar-lhe
Aquecendo as vistas, chamando para a sensação
E em último soneto fantástico
Construiria seu sustento em fé e infância
Mesmo que ninguém entendesse!


Marina Cangussu F. Salomão

Só um barco

Da sala via a chuva lá fora
Batendo na janela a chamá-la
E batia insistentemente a cada pingo
Convidando para um banho sereno
Em gotas fortes a alcançar a pele
E junto de seu véu meio branco
Encharcaria-a de maciez e frio
Ao som do vento em flauta doce
Mesmo tremendo sentiria no tremor
A vivacidade habitar-lhe somente
E esqueceria naquele instante
A vida que deixara usurpar-lhe
Iludida ao som da água a tampar-lhe a vista
Acreditaria que perdera-se naquela que corria 
E apenas com um barco de folha seca
Poderia alcançá-la e revivê-la
Lívida, fresca e cantarola.


Marina Cangussu F. Salomão

sábado, 1 de outubro de 2011

Para minha amada

Há tanto tempo não sinto tuas pedras 
Frias e enevoadas tocar meus pés
Que vagueiam suaves em subidas
Por tuas ingrimes ladeiras
Há tanto tempo não dissolvo-me
Misturando a teus jardins,
Em verde escuro constante,
Penetrando como ramos pelas portas e janelas
A fim de inundar-te e sobrepujar-me
Envolta pelas poesias que ressoam de tuas paredes
Em grandes nomes e belas histórias
Há quanto tempo minha amada?
Se o futuro desfaz-me a ilusão de habitar-te
Em plenitude de confortos imaginados
E põe-me distante em horas falhas
Que não se veem e não controlam
Então, imagino-me velha e só
De mãos rugosas a equilibrar xícaras
Em frio e dores compensados
Pela quentura do chá,
A usar grafite em tuas mesas
Desenhando as letras que me inspira
A espreitar-te, finalmente!
E em inteligências passadas
Ponho-me a descrever-te
Em paixão cada vez mais cabal
Das ruas e becos que me encantam
E exasperam de desejo
De ser só em ti.




Marina Cangussu F. Salomão

Os príncipes

Desenham-se os novos protagonistas
Em cavalos ainda bem alvos
E tão distintos e interessantes
Que amedrontam-me em desenvoltura
E tomam-me em receio de escolhas.
Já os pensamentos em pecados
Invadem-me com cautelas amistosas
E o medo de envolver se faz forte.
Antes caminhava em pedras mal formadas
Com pés descalços em cenas de drama
Hoje de um só remontam-me alternativas
Que em meio à pouca dúvida
Me invadem em pensamentos oblíquos.
Quisera eu resistir em pés de afastamento
E fazer certa a escolha que fiz.


Marina Cangussu F. Salomão