terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Espreita

De qualquer maneira
Você sempre está por volta 
Rodeando meus pensamentos
Sempre à espreita.
Esperando uma brecha para invadi-los
E fazê-los teus,
Assim como deseja fazer-me tua.
E fica observando todas as cenas
Que se pintam em minha imaginação
Sabe tudo o que se passa em mim
E ciúma todos os personagens.
Mas não vê
Que em tudo lá te ponho,
Lá te encontro e te possuo.


Marina Cangussu F. Salomão

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Poeira

Via-o de pé
Com sua blusa de botão azul
Que combinava com o branco do cabelo
Que justificava a boca um pouco flácida.
De pé, cantava algumas preces com fé
Nele havia fé.
E comovia-me a cena
Não sabia o que balbuciava
Mas vê-lo balbuciando já enchia-me
E o coração avisava-me da vida
E os olhos dos sentimentos
Confesso: invejava-lhe a fé
Sem dúvidas ou explicação,
Invejava-me vê-lo como protagonista
De quadro tão belo
Porque antes sabia-me
Diante de espelho fosco
Mas depois achei
Que aquele embaçado era a verdade
Então, perdi-me
Pensei que o girar do vento
Era o dançar livre de meus pés
E não percebi que era minha poeira
Que estava solta pelo vento.


Marina Cangussu F. Salomão

Sol tremedor

Lá pela tarde vinha uma chuva mansa
Para lavar as foia e o quintal
E pruveitava para resfiar a estrada
Que tremia de tanto calô.
Era que meio dia o sol rachava
E nenhum bicho vivo mexia
Tudo empoleirava na sombra,
Até as vista mal via
Com o chão que vagueava
De tanto vapô que subia.
Entõ, a chuva chegava dispois do café
E salpicava algumas gota
Remexia as árvre com seu vento
E alegrava as dança dos passarinho.
E era nessa hora
Que pontava lá três cabeça
Elas vinha preta de sol tremedor
E umas gota por cima no cabelo.
Vinham sorrindo.
Era triste aquela cena:
Tanto trabaio por uns tustão
E os caboclu ainda ria feliz
Com aquelas boca sem dente
Que o dotor chingava,
Mas é que num havia de sobrar
Depois do leite.
E num havia iscoia
Juro. Num havia.


Marina Cangussu F. Salomão

Eleison

Kyrie Eleison
Por ver a ilusão ardente
No desejo cômodo de elevar
E contemplá-la com pena apenas
Kyrie Eleison
Por ver a cena errada
E temê-la em pés de afastamento
E afastar somente
Kyrie Eleison
Por ver a dor tomar a alma
Consumindo-a vagarosa
E calar-me inquieto
Kyrie Eleison
Por ver o todo engolir
Enlouquecendo a nova comida
E enfeitar-me em prato
Kyrie Eleison
Por ver o livre
Perder a memória de voar
E esquecer também
Kyrie Eleison
Por ver vozes altas se calarem
Junto de suas cabeças
E fingir talvez
Kyrie Eleison
Por ver a dúvida voltar
E a verdade ser concreta
E temer falar
Kyrie Eleison
Por ver as palavras saírem
Sem olhos e com bocas
E apenas não olhar
Kyrie Eleison
Por ver o sonho habitar
Sem esperança de sê-lo
E nunca compreender
Kyrie Eleison
Por ver as palavras
Reclamando sentadas
E desejar silenciar
Kyrie Eleison
Por ver o erro desfilando
Com grossas vistas a olhar
E continuar voltando
Kyrie Eleison
Por ver trejeitos fartos
Abraçados a nossos jeitos
E culturá-los de novo
Kyrie Eleison
Por ver a solidão chegar
Aumentando as malas
E não deslocar
Kyrie Eleison
Por não ver a contemplação
Do que seria mais real
E negar-me a tocar
Kyrie Eleison
Por não ver enflorescer cedo
Sem a importância incomodar
E despreocupar também
Kyrie Eleison
Por não ver as falas conjuntas
Sem assombrosas faces
E retroceder a exclamação
Kyrie Eleison
Por não ver o sincero subir
Diante das bocas em união
E criar o normal
Kyrie Eleison
Por não ver a compreensão
Assumir-se além do instinto
E perder também
Kyrie Eleison
Por não ver o encanto
Nem mesmo a arte
E cegar-me


Marina Cangussu F. Salomão

Vasta vista

Não sentia saudades dos grandes muros
Que encobriam sua janela
Desenhando na vista um quadro cinza
Às vezes com algumas sombras ou riscos
Outras com pretos de lodos
E ainda raro um esperançoso verde
Querendo se firmar.
Não. Não voltava-lhe à memória
Com sequer mancha de saudade
E mesmo depois de tanto distante
Nos momentos de retornar
Nunca desejara o retorno.
Pois a vista daqui era mais ampla
E enganava-lhe a alma com promessas
Que exalavam expansão.
Na verdade, é que tão distante se via
Que sua miopia reduzia
E se perdia naquele mundo vasto
E não precisava mais de tantos espelhos
O que precisava, e cresciam,
Eram duas pequenas asas
Que diziam crescer com o tempo
E depois levava a voar por entre o morros.


Marina Cangussu F. Salomão

Contorno

Era tanto tempo distante
Sem ver-lhe as linhas
Que amedrontava-me perdê-lo
Esquecer seus reais limites
Confundidos com tantos outros.
E alvoroçava-me o coração
Na ânsia de conservar-me o tato
De tê-lo preciso, certo e real.
E depois de muita espera
Ao vê-lo e sentir tua boca tatear-me
Acalmava-me em constatar
Cada delineio devidamente posto
Sempre o mesmo em seu espaço
Sem a ação de minha memória
Ou de outras mãos a bagunçá-los.
Eram sempre minhas linhas,
Que desejava todos os dias
Desejar-me cada mínima parte
Como única e com posse.


Marina Cangussu F. Salomão

Teimosia

Talvez eu o amasse por insistência
Teimando comigo mesma
Sim, sempre fui intransigente
_Apesar de nunca cumprir com minha palavra
Era capaz de extremar-me
E ser o outro oposto
Ainda tão teimosa quanto antes.
Amá-lo era então
Uma forma de cumprir-me
Já que outra vez lhe devotara amor
E de outra neguei-me a qualquer sentimento
Jurei a mim, desta, seguir,
Ao menos uma vez, minha honra
E amá-lo. Sim, amá-lo.
Redimir-me dos rancores que causei
E não ser capaz de magoar
Sequer ser respirante
Pois me disseram que o amor
Carrega esse milagre.
Antes disseram-me também
Para amar sem me importar com suas dores.
Eis outro motivo para fazê-lo
Seu paradoxalismo
_Evidentemente atraente,
Que me sugava na ânsia de compreendê-lo
Desvendar finalmente este segredo.
E mais uma vez minha extremidade:
Nada de resignação:
Nunca me colocariam sentada
Diante de mistérios a resolver.
E resolveria então este:
O amaria até o fim
(como diziam)
Para provar-me capaz
Do que pouco conseguiram.


Marina Cangussu F. Salomão